22 novembro 2007

Implantação dos telefones


Ofício enviado por Juan Ganzo Fernandez a Sr. Cid Campos, então Secretário do Interior e da Justiça de santa Catarina. Datado de 9 de julho de 1927. Localizei o documento numa primeira visita ao acervo histórico de Santa Catarina.


Encontrei ainda há pouco este texto na internet. Cita a família Ganzo como detentora dos serviços de telefonia no estado de Santa Catarina, mas creio que há muitos erros e omissões.
O governador Adolfo Konder de fato fez o convite para a vinda da telefônica do Cel. Juan Ganzo para Santa Catarina, mas foi em 1927, que era quando iria acabar a concessão de 20 anos da empresa de telefonia anterior que era a Triks & Elkhe. E em 1967, a família Ganzo ainda detinha o controle da cia. telefônica em Santa Catarina, mas não no Rio grande do Sul. Esta já havia sido vendida em 1924 para uma empresa americana. E por último, a estatização da CTC... foi em 1968 e não em 1970.

Aqui vai mais um texto:

link original: http://camara.virtualiza.net/historia_criciuma_telefone.php ou clique no título da matéria.



FRAGMENTOS HISTÓRICOS

Implantação dos telefones

O telefone apareceu no Brasil após visita de Dom Pedro II ao Centenário do Estados Unidos, em 1876. No na seguinte foram estabelecidas normas para a implantação do sistema e em 1879 o Imperador concedia espaço para a exploração da atividade.
O governador catarinense Adolfo Konder empenhou-se para trazer a Santa Catarina o novo sistema, sendo implantado em 1930 em Florianópolis. Oito anos antes Porto Alegre já possuía telefones.
O prefeito de Criciúma inicia conversações para obtenção do telefone em Criciúma, ligando a cidade a Tubarão. Em agosto de 1937 era instalada uma central com 50 aparelhos no Edifício Filhinho, onde é hoje o Café São Paulo, no coração da cidade.
O primeiro aparelho foi instalado no Hotel do Comércio, sendo que a primeira pessoa a atender uma chamada, na ausência do prefeito Elias Angeloni, não encontrado no momento da primeira chamada, foi o historiador Pedro Milanez.
Os 50 aparelhos de Criciúma eram movidos à manivela. A telefonista Malvina atendia e conectava com o número interessado. Era um sistema deficiente, caro e sem muita utilidade. Em 1951 o jornal Folha do Povo publica um contrato para quem quisesse adquirir um aparelho.
A ineficiência do serviço telefônico ocorria porque oferecer serviços de telefonia exigia, entre outras coisas, fôlego financeiro para ampliar e melhorar a rede telefônica. Mas a Companhia Catarinense, uma empresa privada, objetivava em primeiro lugar o lucro, sem no entanto, melhorar qualidade das ligações.
Se a ligação fosse para fora da cidade não havia previsão de quanto tempo seria necessário para completá-la.
Em finais de 1962 já haviam se passado quase dois anos desde a fundação da Companhia Telefônica Criciumense, órgão que gerenciava o sistema na cidade. A empresa lidava com várias dificuldades e com a cobrança dos usuários pela melhoria dos serviços e a instalação dos telefones automáticos.
Os automáticos apenas propiciavam mais rapidez nas ligações, já que não se dependia mais da intervenção da telefonista para efetuar ligações municiais. No entanto, na década de 1960, a maior reivindicação de vários setores urbanos era simplesmente possuir um telefone, já que não havia lugares na mesa telefônica para comprar. Em 1965, havia espaço para 230 ramais, instalados nas casas mais abastadas.
O jornal Tribuna Criciumense questionava o porquê da falta de aparelhos em Criciúma. O fato é que a Companhia Criciumense de Telefones não possuía capital para empatar na compra de uma central maior. Alem desse motivo, havia dois outros fatores que dificultavam a ampliação da rede de telefones em Criciúma: para ampliar a mesa telefônica só adquirindo uma nova, com capacidade para mil telefones e, para muitos o pagamento seria fácil, porém, para a maioria seria oneroso demais. Como seria possível para CCT disponibilizar mil novos aparelhos na cidade, sem conseguir aumentar o número de assinantes dispostos a contribuir com a elevada prestação mensal? Outro entrave era a correção monetária, que aumentava mais o custo.
Em novembro de 1966, Wilson barata viaja ao Rio de janeiro a fim de firmar, junto ao Contel e à firma Brickson, o contrato para compra de nova central. Com o acordo firmado, veio a Criciúma um engenheiro para verificar a localização da nova mesa e assim determinar algumas diretrizes para a elaboração da nova sede da Companhia Criciumense de Telefones.
Em 1967 a família Ganzo detinha o controle dos serviços telefônicos em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul. Essa prática de concessão da telefonia a particulares não existia mais nos demais estados brasileiros.
Comprar uma nova central exigia muitos recursos e foi comprada então uma central usada, mas em bom estado, da cidade de Santos. Em 1967 ainda, já instalados ma nova sede ao lado dos Correios, um sistema com bateria punha a funcionar uma mesa com capacidade para mil aparelhos.
Em 1970 o governo federal cria novas políticas relativas á telefonia, estatizando o sistema, encampando a Companhia Telefônica Catarinense, passando-a à Telesc.
O sistema somente foi privatizado no primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso, propiciando salto tecnológico e democratizando o acesso, inclusive de telefonia móvel.
Atualmente o Brasil tem mais telefones celulares que fixos.

Fonte: Adriana Fraga Vieira

19 novembro 2007

Autobiografia de Juan Carlos Ganzo Fernandez


Como falei na postagem anterior... entre os papeis retirados do apartamento de minha avó havia um caderno. Nele, escrito com data de 1 de junho de 1960 havia o rascunho do que seria uma autobiografia de meu avô Juan Carlos Ganzo Fernandez, nesta data com 68 anos. Infelizmente ele não continuou a história... mas sabemos de forma fragmentada o restante. Interessante saber que, conforme meu avô, a invenção da telefonia a longa distância foi do Cel. Juan Ganzo Fernandez, seu pai, meu bisavô. Ao menos supunha ser, já que certamente naquela época, as notícias não corriam o mundo como hoje.
Transcrevo agora a autobiografia, sem cortes e com os erros originais de português. Lembrando que meu avô era Uruguaio e provavelmente nunca se adaptou totalmente à nossa língua.
Outra coisa, é o fato dele narrar sobre sua cidade natal sem citar o nome: Será que não sabia? E o ano de seu nascimento? Incógnitas!
Bem, neste mesmo caderno, ele esboçou sua árvore genealógica, tanto por parte de pai, quanto de mãe, assim, posso ter mais subsídios para descobrir juntamente com o primo Rodolfo do Uruguay aonde anda o resto da família que se perdeu no tempo e na distância... ainda descubro!
Ano de nascimento: 1892
Cidade: Florida - Uruguay

Obs. Hehehehehe

Eis aqui as palavras de Juan Carlos Ganzo Fernandez:


1-6-1960

"Eu naci la pelos idos de mil oitocentos noventa e pouco, numa pequena cidade do interior do Uruguai.
Meus paes ambos muito moço, me criaram como se cria em geral os meninos de toda a gente. Me lembro muito bem que mamei até depois de completar quatro anos. Naturalmente que minha santa mãe não tinha leite, por que o segundo filho somente naceu oito anos depois de mim, mas eu sei que mamava ate depois dos quatro anos.
Suponho que seja por isso que não posso ver uma mulher de busto avantajado sem que me venha uma vontade maluca de abrir-lhe o vestido e começar a mamar as veses até nem é necessário que o busto seja avantajado como disse. Possivelmente é uma tara que levarei para a cova. Estou vendo que sem querer, estou sahindo do assunto que me prometi escrever.
Meu pae e minha mãe se mudaram para a capital quando eu tinha quinse dias e como é natural não tive mais remédio que acompanha-los.
Em Montevideo meu pae com os poucos recursos que possuia começou instalando pararraios na cidade e mais tarde nas fazendas. Parece que o negocio dava boa margem de lucros e nos fomos prosperando. Me esquecia de contar que meu pae veio com minha querida avó das ilhas canarias de donde eram oriundos quando tinha dose anos. Como a este tempo ja era orfão de pae, teve de dar duro de chegada - Minha avó que era eximia doceira se estabeleceu com uma pequena confeitaria numa pequena cidade perto da capital.
Meu pae que tinha paixão pela electricidade se empregou na Companhía Telefonica de Montevideu e em pouco tempo, com trese anos era ele que as telefonistas exigiam á direção que fosse reparar os aparelhos porque era o unico que removia os defeitos e os telefones ficavam bem por muito tempo.
Como disse antes, meu pae, homem de grande iniciativa, com seus escasso recursos e, com um pouco de ajuda de vôvò, instalou a central telefonica a Magneto em 1891 na cidade em que vim ao mundo - Por esse tempo não se falava por telefone senão dentro das poucas cidades do mundo que gosavam desse conforto.
A meu pae, dinamico e empreendedor como era lhe ocorreu a ídêa de que com uma força de transmissão mais forte e com uma membrana melhorada, se poderia falar a distancias maiores e se decidiu a melhorar dois telefones para a prova. Quando tudo estava pronto, combinou com um irmão de mamãea hora em que meu tio devia dependurar o fio do telefone que ele levava á linha telegrafica da estrada de ferro que ligava a estação de nossa cidade. Cem kilometros a hora combinada e com relogios aferidos foi meia noite. A essa hora a linha telegrafica estava desocupada e eles com grande satisfação mantiveram uma palestra euforica como não podia ser de outra forma.
Estava provado que se podia falar perfeitamente a cem kilometros e talvez a muito maior distancia e ainda melhor, se construisse linha especial e telefones melhores."

05 novembro 2007

Foto Antiga


Hoje, mais uma vez me surpreendi! Mexendo nos papéis que vieram do apartamento de minha avó, encontrei um caderno... dentro uma biografia inacabada de meu avô Juan Carlos Ganzo Fernandez. O conteúdo será o motivo de próximo blog. Porém, dentro deste caderno havia um recorte: Uma foto tirada no Rio de Janeiro no ano de 1933. Bela foto... mas infelizmente retirada de um jornal. Nem identifico as pessoas nela atribuídas. E por este motivo, resolvi tentar a sorte e a persistência: telefonei para a Secretaria de Cultura do Rio Grande do Sul, mas, ainda não consegui contatar a pessoa correta... e através do Orkut, enviei mensagem a uma neta/bisneta de Osvaldo Aranha, segundo consta, grande amigo de meu avô. Veremos em breve se descubro novas fotos destes. É o que eu espero!

31 outubro 2007

Juan Ganzo Fernandez declamando Poesia

Ontem, recebi um agradável telefonema... Rodolfo Bia Ganzo, nosso primo de Montevideo. Fez-me uma surpresa: conseguiu através de Luis e Laura Ganz, filhos de Edison Anibal Ganzo que a sua vez é filho de Manuel Ganzo (filho natural reconhecido do Coronel Juan Ganzo), estas duas faixas de um disco de vinil, provavelmente do início do século.
Foi um presente e tanto! Mas quem deveria ter recebido o presente era ele, pois aniversariou dia 28 de outubro... e eu dia 24! Parabéns Rodolfo e muito obrigado!
Bom, percebe-se que temos mais primos no Uruguay... Edison Anibal, Luis e Laura Ganz! Teremos imenso prazer em conhecê-los pessoalmente... quem sabe neste verão de 2008? Obrigado a todos pela colaboração!


Gracias y saludos


Parte 1
Parte 2



GASPAR NÚÑEZ DE ARCE
¡Treinta años!

1

¡Treinta años! ¿Quién me diría
que tuviese al cabo de ellos
si no blancos mis cabellos
el alma apagada y fría?
Un día tras otro día
mi existencia han consumido,
y hoy asombrado, aturdido,
mi memoria se derrama
por el ancho panorama
de los años que he vivido.

2

Y aparecen ante mí
fugitivas y ligeras
las venturosas quimeras
que desvanecerse vi:
la inocencia que perdí,
y aquel vago sentimiento
que animó mi pensamiento
cuando eran mis alegrías
las mágicas armonías
del mar, del bosque y del viento.

3

Han sido para mi daño
en la vida que disfruto
un siglo cada minuto,
una eternidad cada año.
El dolor y el desengaño
forman parte de mí mismo,
y el torpe materialismo
de esta edad indiferente
cubre de sombras mi frente
y abre a mis pies un abismo.

4

Sacude el mar su melena
de crespas olas rugiendo,
y con pavoroso estruendo
los aires asorda y llena.
Pero una playa de arena
su audaz cólera contiene…
¡Ay! ¿Quién habrá que refrene
el tormentoso oceano
que en el pensamiento humano
ni fondo ni orillas tiene

5

¡La razón!…Tanto se encumbra,
tan locamente camina,
que ya no es luz que ilumina
sino hoguera que deslumbra.
Al horror nos acostumbra,
siembra de ruinas el suelo,
y en su inextinguible anhelo
álzase hasta Dios atea
con la sacrílega idea
de derribarle del cielo.

6

He visto tronos volcados,
instituciones caídas,
y tras recias sacudidas
pueblos y reyes cansados.
Propios y ajenos cuidados
muévenme continua guerra,
y mi espíritu se aterra
cuando perdida la calma,
siento rugir en el alma
la tempestad de la tierra.

7

Cuando pienso en lo que fui
hondas heridas renuevo,
y me parece que llevo
la muerte dentro de mí.
No veo lo que antes vi,
no siento lo que he sentido,
no responde ni un latido
del corazón si a él acudo,
llamo al cielo y está mudo,
busco mi fe y la he perdido.

8

Infeliz generación
que vas, con loco ardimiento,
nutriendo tu entendimiento
a expensas del corazón.
Díme, ¿no es cierto que son
vivas tus penas y ardientes?
¿No es verdad que te arrepientes
presa de terrores graves,
de los misterios que sabes
y de las dudas que sientes?

9

¡Yo sí! Feliz si lograra
después de mis desengaños,
lanzar hacia atrás los años
que el destino me depara.
Pero, ¡ay! el tiempo no para,
ni tuerce su curso el río,
ni vuelve al nido vacío
el ave muerta en la selva
ni quiere el cielo que vuelva
la esperanza al pecho mío.

18 outubro 2007

Filmagens Antigas

Consegui disponibilizar este vídeo. Começa com o casamento de minha mãe e há outras filmagens onde aparecem vários familiares, entre eles, Juan Carlos Ganzo Fernandez, Albertina S. de Ganzo, Juancito Ganzo Fernandez, Franklin Ganzo, Vovó Clorinda, Tia Nena, Tia Dora, Norberto Hüll, Argemiro Afonso Pereira, Lucinda Cascaes Verani... deixaram muitas saudades!
A qualidade da imagem não está boa, mas vale o registro. Você vai precisar de um programa de video compatível com Windows Media Player.

04 outubro 2007

Biografia de Juan Ganzo Fernandez - Até 1927


JUAN GANZO FERNANDEZ 05.10.1872 - 02.04.1957



Espanhol, nascido nas Ilhas Canárias, Las Palmas, a 5 de outubro de 1872.
Em 1885 veio para o Uruguai, trabalhando um tempo na fábrica de tintas da família.
Em Montevidéu estudou, especializando-se em eletricidade. Era um admirador convicto do sábio Alexander Graham Bell, criador dos serviços telefônicos nos Estados Unidos, em 1876.
Idealista e empreendedor, acreditava ser a voz humana o natural meio de comunicação. Instalou linhas telefônicas em San José / Uruguai e ligou Montevidéu a Canelones, Florida e Santa Lúcia.
No Uruguai, Juan Ganzo Fernandez pertencia as fileiras do Partido Nacional, dos líderes blancos da família Saraiva, ao lado dos quais esteve lutando nas revoluções de 1897 e 1904. Das batalhas contra os colorados, conquistou o título de coronel, que ostentava com orgulho.
Convidado por Dr. Carlos Barbosa, Juan Ganzo Fernandez instalou telefonia em Jaguarão, Bagé e em muitos outros locais no Rio Grande do Sul.
Juan Ganzo Fernandez foi o Pioneiro da Telefonia no Rio Grande do Sul.
Em 1908, Juan Ganzo Fernandez criou, em Porto Alegre, a COMPANHIA TELEPHONICA RIO-GRANDENSE e, em 1922, introduziu o telefone automático, a fonografia e o serviço rádio-telefônico, ligando Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro. O Livro-Diário com a ata da fundação da Companhia Telephonica Rio-Grandense hoje está no acervo do Museu da CRT - Companhia Rio-Grandense de Telecomunicações, na Avenida Antônio de Carvalho, 555, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. O Museu reúne em seu acervo mais de 600 peças, entre aparelhos telefônicos, fotografias, livros, documentos, equipamentos, enfim, objetos que denotam a evolução das comunicações telefônicas em nosso Estado.
Em 1927 o Coronel Ganzo vendeu o acervo telefônico à ITT - International Telegraph and Telephone, empresa norte-americana, permanecendo como Diretor até 1940, quando passou a residir em Florianópolis, Estado de Santa Catarina, onde faleceu a 2 de abril de 1957.
Juan Ganzo Fernandez, a 7 de setembro de 1924, fundou, juntamente com o Dr. Décio Martins Coimbra, Diretor do Jornal "A Federação" e Augusto de Carvalho, a Rádio Sociedade Rio-Grandense, primeira emissora do Rio Grande do Sul. O transmissor foi doação de Juan Edison Ganzo Fernandez e Evaristo Bicca Quintana, que foram busca-lo em Buenos Aires, na Argentina, onde o rádio já estava bem mais desenvolvido. Foi o primeiro transmissor de radiobroadcasting que chegou ao Rio Grande do Sul. Juan Edison Ganzo Fernandez era filho de Juan Ganzo Fernandez, batizado conforme uma mania familiar de homenagear inventores, no caso, o da lâmpada incandescente, o norte-americano Thomas Alva Edison.
O Jornal "A Federação", tradicional jornal gaúcho diário, na data de 5 de setembro de 1924, na secção "Radiotelephonia", estampou, como subsídio histórico:
"No salão nobre da "Federação" reuniram-se numerosos amadores de radiotelephonia, resolvendo fundar uma sociedade no gênero das existentes no país e no estrangeiro. Aclamado para presidir os trabalhos, o Dr. Décio Coimbra, diretor desta folha, expôs os fins da reunião, propondo que se desse à novel Associação o nome de "Rádio Sociedade Rio-Grandense".
No mesmo Jornal "A Federação", edição de 8 de setembro de 1924, na página 5, temos a confirmação de que se cumpriu o previsto na Assembléia já descrita. O jornal, com destaque, estampou:

"A RADIOTELEPHONIA ENTRE NÓS inauguração da R. S. R. (Rádio Sociedade Rio-Grandense) suas primeiras irradiações

Inaugurou-se ontem, às 21 horas, num dos salões da Vila Diamêla, gentilmente cedido pelo Sr. Cel. Juan Ganzo Fernandez, a novel Rádio Sociedade Rio-Grandense, fundada por amadores residentes nesta Capital. O Sr. Eduardo Guimarães saudou o Presidente do Estado e demais autoridades afirmando:
"Já não há, conquista da nossa época, distâncias invencíveis, e as antigas morosidades do tempo e do espaço foram abolidas".
Programação inaugural:
- Lohengrin, de Wagner: Sonho de Elsa, pela Professora do Conservatório, Srta. Olinda Braga.
- Da ópera Thais, de Massenet: "Dis-moi que je suis belle", pela Srta. Aracy Godoy Gomes.
- "Ricordando", de Genero Napoli, pela Sra. Marques Pereira.
- "Polonaise", de Chopin, pela srta. Zaira Autran.
- "A Canção da Saudade", de Olegario Mariano, pela Srta. Diamêla Ganzo Fernandez.
Um mês depois, 7 de outubro de 1924, a secção "Radiotelephonia", do Jornal "A Federação", inseria a convocação para uma Assembléia Geral para eleição da primeira Diretoria definitiva da "Rádio Sociedade Rio-Grandense", marcada para o dia seguinte.
A mesma convocação anunciava que o número oficial de cem sócios já se elevara para trezentos. E relacionava seus nomes.
À 11 de outubro, à página 2 do mesmo jornal, divulgavam-se os resultados daquela Assembléia que teve por local os elegantes salões da "Rocco", a mais requintada confeitaria da época:
"Directoria eleita: Presidente: Juan Ganzo Fernandez; Vice-Presidente: Dr. João Alcides Cunha; 1º Secretário: Augusto de Carvalho; 2º Secretário: José Pessoa de Mello; 1º Thesoureiro: Dario Coelho; 2º Thesoureiro: Gustavo Leyraud. Conselho Diretor: Edison Ganzo, Dr. Mário Reis, Prof. Tasso Corrêa, Adeodato Araújo. Suplentes: Germano Heussler, J. Ennet, Alfredo Meneghetti e Pelegrin Filgueiras. Conselho Fiscal: Dr. Viterbo de Carvalho, Luciano Junqueira e Luciana Cunha.
Da mesma ata constou a notícia, das mais animadoras aos presentes, de já estar "quase instalado novo e potente transmissor da Rádio Sociedade Rio-Grandense, na Escola Complementar".
A Rádio Sociedade Rio-Grandense procurou seguir o modelo da época, implantado no Rio de Janeiro por Roquette Pinto. Radioamadorismo e associativo. Cada um de seus trezentos sócios deveria contribuir com mensalidade de cinco mil réis.
Nem sempre pontuais nas contribuições, os sócios deixaram a empresa com sérios problemas econômicos. Partiu-se para o debate sobre as conveniências ou não de se apelar ao comércio. Este foi voto vencido. Pretendeu-se fidelidade aos princípios exclusivamente culturais ditados pelo fundador da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro.
A Rádio Sociedade Rio-Grandense, por isso mesmo, não chegou a comemorar o seu segundo aniversário.
Os depoimentos colhidos, quanto aos receptores da época, 1924, em Porto Alegre, esclareceram que, além do razoável número de "galenas", já existiam receptores à válvulas, importados pela firma "Barreto Viana" ou comprados no estrangeiro, principalmente em Buenos Aires, por eventuais viajantes. A tais aparelhos eram acopladas cornetas metálicas, alto-falantes, sem condições ideais de sonoridade. Os receptores usavam energia de "pilhas", mais propriamente, "baterias", bastante volumosas.
Cel. Juan Ganzo Fernandez era não só um trabalhador mas, um sonhador voltado a grandiosas realizações.
Possuia uma enorme área verde entre a Rua do Menino Deus (atual Av. Getúlio Vargas) e Av. Praia de Belas, conhecida como "Vila Diamêla", nome de uma de suas filhas.
Em 1913 organizou, na Vila Diamêla, o 1º Zoológico Porto-Alegrense. Havia variada coleção de pássaros de vários portes, em viveiros adequados e artísticos, alguns lagos, sombreados por taquaras. Era muito variada a coleção de macacos, de sagüis nativos e até orangotangos africanos. Tinha também: tigres, leões, leopardos e ursos em jaulas especiais, camelos, elefantes e uma onça pintada vinda de Erechim, a qual era muito admirada.
No prédio fronteiro do Zoológico funcionava um cassino e um café concerto, inédido e atraente recanto nesta Capital.
Mais ou menos em 1925 foi fechado o Zoológico. Os animais foram levados para o zoológico de Montevidéu e Buenos Aires.
Certa ocasião, no centro do Zoológico, foi montada a ópera "Aida" (Verdi) por uma companhia italiana.
Nos fundos do terreno ficavam as oficinas da Cia. Telephonica Rio-Grandense e um grande galpão de madeira com canchas, onde os funcionários da Companhia Telephonica jogavam bocha.

Colaboração de Ivan Dorneles Rodrigues - PY3IDR
e-mail: ivanr@cpovo.net

05 agosto 2007

As Bodas de Ouro de Meus Pais

Casamento de Dalby e Clorinda... 24 de Julho de 1957



Dia 24 de julho de 2007... neste dia, meus pais completaram 50 anos de casados. Foi com imenso prazer que pudemos festejar este relacionamento divino que gerou tantos bons frutos! Nossa família abençoada pela constante presença destes pais maravilhosos, Dalby Verani Pereira e Clorinda Ganzo Pereira, agradece eternamente a Deus por cruzar os destinos destes dois seres. Há 50 anos, quando os dois adentraram a capela do Divino Espírito Santo, na praça Dona Tilinha em Florianópolis, já deviam imaginar o que a vida reservaria à eles: Muitos filhos, noras, netos... uma grande... enorme família. Além disto, deviam imaginar que a felicidade seria algo muito presente entre eles. Amizade, compreensão, amor... eis as melhores palavras para designar este lindo enlace. Sabemos que nem sempre de rosas vive um relacionamento, que sempre estes momentos foram alternados por altos e baixos, mas qual relacionamento não é? E é isto mesmo que prova que vocês foram feitos um para o outro... a convivência a dois só é possível se pudermos discutir o relacionamento, auxiliar, confortar e termos compreensão e paciência.
Meus pais... meus amigos... nossos amparos... nossa segurança. Ahhh... falar sobre eles sempre é difícil... me emociono muito! Isto prova que eles souberam nos educar. Amamos demais, admiramos demais, orgulhamo-nos demais deles! Gostaria de poder oferecer uma homenagem maior, grandiosa, completa... mas contento-me por ora, em deixar aqui meu agradecimento por ter nascido, criado para o mundo por eles... meus pais... Dalby e Clorinda! Obrigado Paizinho... obrigado Mãezinha... Deus sabe que vocês acertaram na mistura, os ingredientes estavam certos e que a forma era boa! OBRIGADO e PARABÉNS por suas Bodas de OURO!

12 julho 2007

Juan Carlos Ganzo Fernandez - O Fim da CTC


Estive visitando o apartamento de minha avó esses dias. Sempre que vou lá sinto-me próximo dela, e vendo suas coisas levo-me a meus avós, suas vidas.

Abri uma pasta com o nome de meu avô impresso no lado de fora. Era a pasta que ele usava para guardar seus envelopes timbrados com seu nome ou da companhia telefônica catarinense e no meio destes papéis deparei-me com algumas cartas. Creio que essas poucas cartas tenham sido guardadas com muito carinho, saudades e talvez uma certa mágoa, por não poder ajudá-los com seu coração de ouro. Todas são de parentes seus, uruguaios. Há duas cartas de Electra Ganzo de Azpiróz, de Melo, Uruguay, solicitando a meu avô se há como conseguir um emprego ao futuro genro desta prima. Junto as cartas, um rascunho com as letras de meu avô da resposta à primeira carta. Como datam 1970 e 71, respectivamente, 2 e 3 anos após o encampamento da telefônica pelo governo do estado de Santa Catarina, percebe-se o mal estar que ocorre com meu avô. Muito triste... transcreverei aqui esta resposta:


Esta foto estava entre as cartas. Meu avô é o terceiro à direita. Foto de 1915 0u 16.



"Se tu carta hubiera llegado dos años antes, mi respuesta mediata seria: que venga, y ya, pero querida prima, hace casi dos años, el gobierno del Estado, nos sacó la Telefonica, nuestro trabajo de cuarenta y tantos años y nos dejó a todos poco menos que sin recursos puesto que hasta ahora no nos han pagado ni un vínten de lo estipulado por la compra que era de un millon y docientos y cincuenta mil dolares.
Por lo visto,...... que a esta altura de mi vida, estoy totalmente decrepito y desmemoriado, pues em piezas tu querida carta dicento que sos la hija de José Pedro, y que talvez no recuerde por que te vi muy chiquitita.
Quien que no fuera de nuestra familia de los Ganzos se podria llamar Electra? Edison, Franklin, Volt, Faradai etc etc?
Recien ahora para fin de mez receberemos el 20 % depues de 2 años. Esto te digo, para que veas que no tengo mas condiciones de prometer un empleo, y mucho menos a um futuro genro tuyo que declara ser bien remunerado."




Meu avô e toda sua família sofreu demais com a perda de sua Companhia Telefônica Catarinense. O fruto dos grandes empreendedores uruguaios, seu patrimônio gigantesco, de uma hora para outra, lhes é arrancado. Anos de suas vidas, seus sustentos, lhes são arrancados sem cerimônia. A Empresa que fundaram a pedido do então governador Adolfo Konder em 1927, é agora lhes retirada em seu auge. Compensação monetária? Nenhuma... apenas míseros cruzeiros.
E hoje, quando atender o telefone, saiba que os verdadeiros pioneiros da telefonia no Brasil foram estes senhores que a nossa sociedade não lembra mais. Coronel Juan Ganzo Fernandez e Juan Carlos Ganzo Fernandez, foram os grandes homens que nos proporcionaram acesso a esta tecnologia, aqui em Florianópolis e em toda Santa Catarina.

10 junho 2007

UM POUCO DA HISTÓRIA DE FLORIANÓPOLIS





Edição Nº 9 - julho de 2004





A Tragédia de Desterro


Numa das passagens mais sangrentas e aviltantes da história, a capital de Santa Catarina teve seu nome alterado de Desterro para Florianópolis


Numa das passagens mais sangrentas e aviltantes da história, a capital de Santa Catarina teve seu nome alterado de Desterro para Florianópolis. Encerrava-se a guerra civil em que a ilha sediou uma república independente, fundada por federalistas e rebeldes da Armada

Roberto Tonera, historiador e arquiteto
Desterro no início do século XX, com a Baía Sul à esquerda e Baía Norte, à direita, em tela de Eduardo Dias.

Em 16 de abril de 1894 chegava ao fim o revolucionário Governo Provisório da República dos Estados Unidos do Brasil, que havia se insurgido numa guerra civil contra o governo central do marechal Floriano Peixoto.

Por seis meses, a cidade de Desterro, capital de Santa Catarina, foi sede dessa república independente, formada pela união dos revolucionários federalistas dos três estados do sul do país com os também rebelados militares da Marinha Brasileira. Após a derrota, Desterro seria rebatizada como Florianópolis - em homenagem a Floriano - e dezenas de revoltosos seriam perseguidos, presos e sumariamente executados, em um dos capítulos mais sangrentos da história brasileira.

O episódio decisivo para o fim da revolta foi o combate naval travado na madrugada daquele 16 de abril, entre uma frota de 11 embarcações legalistas e o temido encouraçado Aquidaban. Líder da Revolta da Armada, como era então denominada a Marinha do Brasil, aquela embarcação representava o último elo de resistência contra o governo de Floriano. Passava das 11 horas da noite quando a frota legalista bombardeou a Fortaleza de Santa Cruz de Anhatomirim, ao norte da cidade de Desterro.

AQUIDABAN

Fundeado um pouco ao sul da Fortaleza, o Aquidaban preparou-se para o combate. Às duas e meia da madrugada, o caça-torpedeira Gustavo Sampaio e outras três embarcações da frota legal iniciaram as manobras de ataque. O encouraçado só tomou conhecimento das torpedeiras inimigas quando distinguiu um vulto pela proa, a pouco mais de 200 metros. Ao reconhecê-las, o Aquidaban abriu fogo com seus poderosos canhões e suas metralhadoras. Porém, devido à proximidade do inimigo, os tiros dos canhões passaram alto, errando o alvo, e os disparos das metralhadoras causaram apenas um leve ferimento em um de seus oponentes.

As embarcações legalistas revidaram o ataque lançando três torpedos que, no entanto, também erraram o alvo. Vendo falhar os disparos, o Gustavo Sampaio deu a volta pela popa do adversário, lançando um quarto torpedo, desta vez atingindo de forma certeira a proa do Aquidaban. O impacto do torpedo foi bastante forte, alagando os compartimentos da proa. O Aquidaban ainda tentou seguir para mar aberto, mas teve de retornar para local mais raso, onde pôde descansar o casco no fundo.

O comandante e toda a sua tripulação logo abandonaram a embarcação avariada, buscando abrigo e retirada por terra. A utilização de torpedos em um combate naval só havia ocorrido em outras duas ocasiões, sendo aquela a primeira na história militar brasileira.

Naquela manhã de 16 de abril de 1894, o Aquidaban, a melhor embarcação da Marinha Brasileira, ia a pique e com ele a Revolução Federalista e a Revolta da Armada em Santa Catarina. Assim que em Desterro souberam do resultado do combate, os membros do governo revolucionário instalado na ilha catarinense fugiram para o continente. No dia 19 de abril, chegaria à cidade o coronel Antonio Moreira César, promovendo um sangrento "ajuste de contas" com os revoltosos vencidos.

O AUTORITARISMO DE FLORIANO

As causas desse turbilhão de acontecimentos, no entanto, começaram a fermentar alguns anos antes, com a Proclamação da República, em 1889. No Império, o poder militar do país concentrava-se na monarquista e nobiliárquica Marinha de Guerra. Com o novo regime, essa hegemonia transferiu-se para o Exército, composto em boa parte pela pequena burguesia.

Desde 1891 no comando da República, após a renúncia forçada de Deodoro da Fonseca, o vice-presidente Floriano Peixoto tomara uma série de medidas autoritárias: demitira governadores, aposentara e rebaixara militares, intimidara o poder judiciário e censurara a imprensa. As forças econômicas e políticas do sul do Brasil, por sua vez, continuavam se sentindo preteridas no cenário nacional. Existiam ainda os monarquistas, saudosos do antigo regime, e até republicanos e positivistas descontentes com os rumos militaristas assumidos pela República.

O repúdio aos atos de centralismo e autoritarismo praticados pelo governo era quase uma unanimidade nacional, unindo várias insatisfações políticas, militares e econômicas contra o governo ditatorial de Floriano.

Esse clima de tensão imperava no país quando, em 2 de fevereiro de 1893, iniciou-se no Rio Grande do Sul a Revolução Federalista, alguns dias depois da eleição, escandalosamente fraudulenta, de Júlio de Castilhos à presidência do estado. Em um dos lados, estavam os federalistas, também chamados "maragatos". Liderados por Silveira Martins, tinham Gumercindo Saraiva como seu verdadeiro chefe militar. Já os castilhistas, conhecidos como "pica-paus", contavam com o apoio de Floriano. A guerra civil espalhou-se pelos três estados do sul, perdurou por 31 meses e foi marcada por atrocidades contra civis e militares.

As "sangras" ou degolas, e os fuzilamentos - execuções sumárias praticadas com requintes de crueldade por ambos os lados - vitimaram aproximadamente 10 mil pessoas, mortandade sem paralelo na história do Brasil.

Por sua vez, no Rio de Janeiro, o almirante Custódio José de Melo, ex-ministro da Marinha, descontente com os atos de Floriano, e contando com o apoio de monarquistas e partidários de Deodoro, exigiu a renúncia do vice-presidente. Como o marechal não cedeu, parte da esquadra sob a liderança de Custódio de Melo rebelou-se, bombardeando a capital federal, em 6 de setembro de 1893, e dando início à Revolta da Armada. Logo depois, seguiu para o sul do país uma força-tarefa rebelde sob o comando do capitão-de-mar-e-guerra Frederico Guilherme de Lorena.

A intenção era estabelecer contato com as tropas federalistas que também se batiam contra o governo da União. Protegida pelo costado do encouraçado Aquidaban, a frota do comandante Lorena escapou da baía de Guanabara sob o fogo das fortalezas de Santa Cruz, São João e Lage, chegando à Ilha de Santa Catarina em 26 de setembro.
A decisão do comandante Lorena de seguir para Desterro, mesmo sem ordens superiores expressas para isso, é creditada ao fato de o governo estadual haver já se declarado contrário a Floriano. Outro motivo seria a posição estratégica da Ilha de Santa Catarina, porto abrigado e próximo aos conflitos do sul. O fato de Lorena ter passado a maior parte de sua infância em Desterro deve também ter pesado nessa decisão, que em breve selaria de forma drástica o seu próprio destino e o da cidade na qual crescera.

UMA NOVA REPÚBLICA NO SUL

Embora o governo civil de Santa Catarina fosse simpático aos federalistas, a Guarnição Militar permanecia fiel a Floriano. Assim, na manhã do dia 27 de setembro, os disparos da artilharia legalista, que havia se deslocado para o norte da Ilha de Santa Catarina, fizeram a frota rebelde recuar. Contornando a ilha e entrando pela baía sul a bordo do cruzador República, Lorena fundeou sua força-tarefa em frente à cidade de Desterro, de onde intimou a resistência legalista à rendição.

Com exceção do pequeno Forte de Santana, que contava com dois canhões Krupp, e a Capitania dos Portos, com um canhão Bange, as demais fortificações estavam guarnecidas apenas com o velho armamento do século XVIII, sem eficiência contra os modernos canhões das embarcações rebeldes. O comandante do Forte de Santana ainda fez reunir diversos canhões de ferro fundido, imprestáveis, que jaziam havia anos enterrados pela metade, enfeitando os logradouros públicos da cidade. Era uma tentativa desesperada de simular um poderio bélico de que não dispunha.

Mesmo inferiorizado, Santana trocou tiros com o cruzador República, que, fora do alcance daquela precária munição, bombardeou o forte com eficácia, forçando-o a um imediato cessar-fogo. No dia 29, reuniram-se 46 oficiais de diferentes patentes do Exército e da Armada que se achavam no Desterro. Assinaram os amistosos e honrosos termos do acordo de rendição da guarnição do Desterro. Aquele documento seria, posteriormente, a sentença de morte de muitos daqueles oficiais, fuzilados em Anhatomirim no ano seguinte.

A pacata cidade de Desterro, agora em poder dos revoltosos da Armada, seria proclamada capital daquela nova república. Em 14 de outubro de 1893, na frente do Palácio do Governo do Estado, o comandante Frederico de Lorena declarou instalado o Governo Provisório da República dos Estados Unidos do Brasil. O novo governo considerava-se separado da União, enquanto Floriano Peixoto não fosse deposto. Esse Governo Provisório almejava unir os rebeldes da Armada aos federalistas do Sul, com o objetivo comum de derrubar Floriano. Pretendia também justificar, perante outras nações, a solicitação do reconhecimento do estado de beligerância. Isso as obrigaria à neutralidade, impedindo o livre fornecimento de armas e munições ao governo legal.

Pouco tempo depois, essa suposta unidade se mostraria extremamente frágil e começaram a aflorar os desentendimentos entre os líderes da Revolta da Armada e os federalistas, em luta no Paraná e no Rio Grande do Sul. Estes últimos, na verdade, nunca se consideraram parte efetiva daquele militarizado Governo Provisório.
As várias correntes de pensamento, contrárias ao Governo Central, careciam de uma unidade ideológica, compondo um amálgama de interesses muitas vezes conflitantes. Eram separatistas, federalistas, republicanos "históricos" preteridos no poder, parlamentaristas, positivistas, militaristas, civilistas e monarquistas.

Junte-se a isso o surgimento de disputas por poder, conflitos entre lideranças locais, vaidades e ambições pessoais e políticas, além da falta de recursos para financiar a revolução. Esse conjunto de causas levou à desintegração do sonho de um governo revolucionário único. Na realidade, a oposição a Floriano era talvez o único ponto de convergência entre esses vários ideais. Fora motivo bastante para deflagrar uma revolta, mas insuficiente para sustentar um movimento coeso.

Em março de 1894, Frederico de Lorena entregou o Governo Provisório para uma junta governativa, e Floriano Peixoto conseguiu reorganizar suas forças navais e retomar o porto do Rio de Janeiro. Ingenuamente, os revoltosos consideravam a queda do marechal apenas uma questão de tempo. Por isso, menosprezaram a aquisição das novas embarcações européias e americanas pelo Governo Central, denominando jocosamente a frota florianista de "esquadra de papelão".

Com o insucesso da tomada de Rio Grande por Custódio de Melo, e a posterior entrega dos navios da frota rebelde ao governo argentino, ficaram em Desterro apenas o encouraçado Aquidaban e mais três pequenos vapores. Todos sob a frágil proteção das fortalezas da barra. Foi quando a esquadra legal partiu do Rio de Janeiro para a retomada do Sul.

Com a derrota do navio rebelde Aquidaban, no combate de 16 de abril de 1894, o movimento foi debelado em Santa Catarina e Desterro, retomada pelas tropas federais. Braço direito de Floriano Peixoto, o temido coronel Antônio Moreira César - cuja perversidade lhe valeria o apelido de corta-cabeças - chegou à cidade no dia 19. Com a função de delegado do governo federal, assumiu o governo militar do estado no dia 22 de abril. Chefiando com mão de ferro as forças de intervenção em Santa Catarina, e contando com o revanchismo das lideranças republicanas locais, Moreira César iniciou uma violenta represália aos vencidos. Tão sangrenta como foram as degolas praticadas no Rio Grande do Sul e no Paraná pelos dois lados em luta.

Na caça aos revoltosos, ele e seus auxiliares praticaram saques, estupros, incêndios e morticínio de cidadãos indefesos. Foi um tempo de terror, silêncio e traições, quando foram utilizadas as mais cruéis formas de coação e tortura. A fortaleza de Anhatomirim foi o principal palco desses acontecimentos, servindo de prisão e local de massacre para dezenas de revoltosos, que lá foram sumariamente fuzilados.
Um contemporâneo daqueles dias de violenta repressão aos federalistas foi o escritor e jornalista Duarte Schutel, que registrou: "Encheu-se de presos tudo o que podia servir de prisão.

Os calabouços e solitárias da cadeia comum, as salas da Câmara, o Quartel de Polícia, o de Linha e até o Teatro, tudo foi pouco, e foi preciso remeter para os navios de guerra os presos à medida que se enchia uma prisão, para fazer lugar aos que chegavam. Esses que embarcam levam destino da Fortaleza de Santa Cruz; deles bem poucos voltaram (...) o maior número, os outros, nunca mais regressaram dessa viagem porque uns não chegaram e muitos ali jazem para sempre (...). A capital catarinense viveu dias de terror, com a população temendo sair às ruas. O silêncio, o recolhimento, o andar soturno dos habitantes horrorizados faziam contraste lúgubre com a algazarra e o desmando, com as petulantes maneiras e sinistras ameaças dos selvagens soldados, que enchiam as ruas e praças".

Os prisioneiros eram encaminhados à Anhatomirim e ficavam encarcerados nos calabouços no Paiol da Pólvora, na Casa do Comandante e no Quartel da Tropa. A recomendação de Moreira César ao comandante da Fortaleza para pô-los "em prisão segura" era uma senha previamente combinada para os fuzilamentos. As execuções foram comunicadas a Floriano em telegrama de 8 de maio de 1894, que dizia: "Marechal Floriano - Rio - Romualdo, Caldeira, Freitas e outros, fuzilados segundo vossas ordens - Antônio Moreira César". No entanto, nunca se conseguiu de fato provar a autenticidade desse telegrama.

Embora não se conheça o local exato das execuções, a Árvore dos Enforcados, um velho araçazeiro localizado no lado sudeste da ilha, teria sido, segundo a tradição oral, o local do enforcamento e fuzilamento de dezenas de prisioneiros. Ao contrário do fuzilamento, o enforcamento era considerado uma morte sem honra, destinada a criminosos comuns. O "ajuste de contas" de Moreira César promoveu prisões e execuções sumárias, atingindo tanto militares quanto civis, sem nenhum tipo de julgamento ou processo.

Por isso, o número exato de mortos nunca pôde ser levantado. Dentre as vítimas chacinadas na fortaleza constam o barão de Batovi, herói da Guerra do Paraguai, vários outros oficiais que haviam assinado a ata de rendição de Desterro e Frederico Guilherme de Lorena, presidente do Governo Provisório. Dependendo do historiador consultado, o número de mortos oscila entre 34 e 185 vítimas.

Muitos foram sepultados numa área gramada, no alto da Ilha de Anhatomirim, próximo ao farolete ainda existente na fortaleza. Outros podem ter sido jogados ao mar ou enterrados em covas rasas em algumas praias do continente em frente à fortaleza. Em 1913, os restos mortais de alguns dos fuzilados em Anhatomirim foram trazidos para o cemitério de Florianópolis e, em 1934, transladados para o Rio de Janeiro. Na lista de vítimas, encaminhada ao Ministério da Marinha pelo capitão dos portos Lucas Boiteux, constavam 43 nomes. No entanto, nunca foi revelada a fonte em que se baseou esta lista.

A culpa desse massacre não pode recair única e exclusivamente sobre Moreira César e seus principais auxiliares diretos, nem mesmo apenas sobre Floriano, mandatário maior do país. Ela deve ser compartilhada também com a classe política local e as demais instituições organizadas da época. Quando não compactuaram diretamente com os atos sanguinários de Moreira César, foram, na melhor hipótese, inertes e omissas aos seus desmandos arbitrários.

HOMENAGEM OU BAJULAÇÃO

Como golpe final na revolução, a cidade de Desterro mudaria seu nome para Florianópolis, numa controversa homenagem a Floriano Peixoto. Na verdade, o nome "Desterro" não agradava aos habitantes locais. Tanto que, em 1888, apresentara-se, na Assembléia Provincial, uma sugestão para que "Ondina" fosse adotado como novo nome da cidade, sem obter, no entanto, maioria para aprovação. Em 1892, Virgílio Várzea reapresentou o mesmo projeto, que não chegou a ser votado.

Outras denominações foram ainda propostas à época: Nossa Senhora da Baía Dupla, Boa Vista, Ponta Alegre e Redenção, entre outros. Finda a revolução, coube ao desembargador Vidal Capistrano, liderando os republicanos catarinenses, propor a mudança do nome para "Florianópolis", num ato público em 17 de maio de 1894.

Levado à consideração de Moreira César, o assunto foi entendido como de competência do Congresso Legislativo, pois sendo delegado do governo da União, tinha escrúpulos de decretar "o que tanto se almejava, para não passar o menor vislumbre de dúvida sobre a manifestação espontânea do povo". A proposta foi aprovada por unanimidade pelo Legislativo e efetivada pela Lei no 111, de 1o de outubro de 1894, sancionada já pelo novo governador, Hercílio Luz. O artigo primeiro da lei trazia a sucinta redação: "A actual Capital do Estado fica, desde já, denominada Florianópolis".

Como vemos, a mudança do nome da cidade ocorreu, não por imposição direta de Floriano ou Moreira César, mas por uma decisão consciente e soberana das elites políticas catarinenses - apesar de duvidosamente democrática, em função do clima de "caça às bruxas" ainda vigente naqueles meses.

Pode-se discutir se as motivações dessa mudança de nome se explicam pelas intenções bajulatórias e apressadas para homenagear a figura do dito "consolidador da República", ou pela necessidade de abrandar a sede de vingança de Moreira César, ou mesmo apenas pelo sádico prazer de eternizar naquele topônimo o golpe final sobre os federalistas vencidos. Independentemente de tomar partido daqueles que hoje defendem aquele batismo como uma homenagem consolidada, merecida ou não, ou daqueles que o refutam como uma humilhação, a ser ainda reparada, o que importa, sem dúvida, é ter consciência e clareza histórica dos fatos que culminaram naqueles acontecimentos.

TORPEDOS UTILIZADOS PELA PRIMEIRA VEZ NO BRASIL

O uso de torpedos em combate havia ocorrido somente na Guerra da Criméia, em 1854, e na Revolta Chilena, em 1891. Foram utilizados com êxito pela terceira vez na história do mundo e primeira no Brasil - no combate naval travado ao largo da Fortaleza de Anhatomirim, na baía norte da Ilha de Santa Catarina. Entre os quatro torpedos de 135 milímetros disparados pela esquadra legalista do marechal Floriano Peixoto, todos do modelo B-57, de fabricação alemã, três deles não atingiram o encouraçado Aquidaban nem nenhum outro alvo. Um desses artefatos foi encontrado por pescadores há alguns anos e levado para o Museu Naval da Marinha, no Rio de Janeiro, onde se encontra até hoje exposto no pátio daquela instituição. Dois outros torpedos ainda permanecem no fundo do mar, em Santa Catarina, à espera de um resgate arqueológico.

AS MELHORES EMBARCAÇÕES DA ARMADA BRASILEIRA
As duas embarcações mais notáveis da Armada, como era chamada no século XIX a Marinha Brasileira, lutaram em lados opostos durante a revolta de 1893/1894. O caça-torpedeira Gustavo Sampaio, fabricado em aço pelos ingleses, em 1893, era o melhor navio adquirido pela esquadra legal. Pesava aproximadamente 498 toneladas, media em torno de 62 metros de comprimento, chegando a desenvolver velocidade de 18 nós. Era armado com dois canhões de 120 milímetros, e outros quatro de 47 milímetros. Possuía ainda três tubos lança-torpedos de 135 milímetros. O encouraçado Aquidaban, também fabricado em aço, foi adquirido da Inglaterra em 1886. Era a principal embarcação da Marinha quando liderou a frota revoltosa contra o governo de Floriano Peixoto. Pesava aproximadamente 5 mil toneladas, media em torno de 93 metros de comprimento por 17 metros de largura, chegando a desenvolver velocidade de 16 nós. Era armado com oito canhões de 225 e 140 milímetros, 11 metralhadoras de 25 milímetros, outras cinco de 11 milímetros, além de cinco tubos lança-torpedos. Depois de ir a pique no combate de abril de 1894, ocorrido junto à Fortaleza de Anhatomirim, em Santa Catarina, o Aquidaban seria recuperado e reformado na Alemanha e Inglaterra. Em janeiro de 1906, explodiria acidentalmente numa missão de rotina, naufragando na Ponta da Jacuacanga, em Angra dos Reis (RJ), e levando 112 pessoas à morte.

PARA SABER MAIS
CALDAS, Cândido. História Militar da Ilha de Santa Catarina: Notas. Florianópolis: Editora Lunardelli, 1992.
MARTINS, Hélio Leôncio. História Naval Brasileira: quinto volume, Tomo IA. Rio de Janeiro: Ministério da Marinha/Serviço de Documentação da Marinha, 1995.
SCHUTEL, Duarte Paranhos. A República Vista do Meu Canto. Florianópolis: Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina, 2002.
TONERA, Roberto. Fortalezas Multimídia. Florianópolis: Editora da UFSC, Projeto Fortalezas Multimídia, 2001 (CD-ROM).





Obs. Hoje, vasculhando a internet em busca de assuntos interessantes para ler, deparei-me com esta matéria. Sei que nada tem haver com a nossa família, mas como é a terra que meu avô escolheu para amar, nada mais justo do que ensinar e aprender sobre esta maravilhosa terra.

17 maio 2007

Nossa luta de cada dia

Juan Ganzo Fernandez ao centro, ladeado por seus fiéis escudeiros da Cia. Telefônica Rio Grandense. Meados de 1920. Sr. Oscar Germano Pedreira sentado na extrema direita.


Mais um dia de nossas vidas... o mundo girando, o tempo passando...
Ontem, em mais uma tentativa de resolver meus problemas, fui novamente à luta, mas desta vez, sem deixar de levar minha aliada... minha esposa, Giovana. Não dá pra imaginar o conforto que foi vê-la me fazendo companhia. Faz muito tempo que venho lutando para conseguir minha licença de publicidade, mais precisamente 4 anos. Já havia me desiludido tanto que praticamente não mais tentava alguma coisa. Precisei pedir para minha companheira me ajudar... e não é que, ao que parece, a coisa se caminha para um desfecho feliz? Coincidência ou não, ontem foi uma tarde de boas notícias... tirando algumas pendências ainda por resolver, descobrimos que meu pedido foi deferido! Num mar de corrupção, de más notícias, isto é uma um alento. Tomara Deus que dê certo. Estou fazendo planos... nunca é tarde pra sonhar!
E nestas horas, lembro de meus avós que lutaram uma luta desigual contra o poder público. Grandes empreendedores, pessoas de visão futurísticas que no Brasil venceram e acabaram por serem vencidos. A derrota amarga, destruidora de seus ânimos, de sua ânsia de viver... e sempre subjugados por aqueles que deveriam tê-los defendido. É muito triste saber que muitas das empresas destes valorosos cidadãos foram parar na mãos dos políticos corruptos, dos empresários fascínoras, de pessoas sem escrúpulos. Ipiranga Petróleo, Cia. TelefônicaRiograndense, Cia. Telefônica Catarinense... são apenas alguns exemplos de empreendimentos bem sucedidos que foram surrupiados pelas mazelas do estado brasileiro.
O que tento explanar aqui, é que, mesmo pensando no sustento de minha família, sem em momento algum, imaginar ficar rico ou passar por cima de alguma lei ou pessoa, tenho encontrado sérias dificuldades... e ao que tudo indica, por interesses alheios aos meus. Propina, corrupção, concorrência??? Sei lá, algo tão simples e ao mesmo tempo, muitíssimo difícil!
Bola pra frente... alguns dias mais... talvez semanas, meses... mas ainda terei minha empresa e que se Deus quiser, obtenha sucesso! É para isto que vou lutar! Minha esposa, meus filhos, minha família... todos torcem por mim!!! E eu também, afinal, temos que honrar nossa tradição empresarial e de todas as formas, lutar contra os maus-caráters da administração pública. Nossos pais, avós, bisavós agradecem.
E amanhã será um novo dia... cheio de alegria e amor!

13 maio 2007

Oscar Germano Pedreira

Juan Ganzo Fernandez sentado à esquerda e Oscar Germano Pedreira em pé, de óculos.


Há alguns dias, me escreveu Marta Pedreira Ghezzi. Contou-me ela que seu avô, Oscar Germano Pedreira foi muito amigo de meu bisavô, Juan Ganzo Fernandez.
Marta está resgatando a história de seu avô e assim, em suas pesquisas, acabou por encontrar este meu blog.
Que interessante... os encontros da família há muito separada no tempo e no espaço, os amigos de nossos avós... suas histórias, fotos, cartas... é maravilhoso poder compartilhar destas emoções.
Obrigado Marta, muito obrigado!




Oscar Germano Pedreira


Oscar Germano Pedreira nasceu em Uruguaiana no dia 27 de março de 1887. Era o terceiro filho do casal Joaquim Maria Pedreira Junior e Orosia Altina Germano Pedreira.

Na infância viveu em Jaguarão e depois em Melo, no Uruguai, quando o pai era vice-cônsul do Brasil.

É provável que tenha chegado a Porto Alegre no final de 1908 ou no início de 1909, já empregado na Companhia Telephonica Rio Grandense, cujo principal acionista (ou um dos principais) era o Coronel Juan Ganzo Fernandez, que ele conhecera em Melo.

Nesse ano prestou exames para o ingresso na escola de Engenharia, iniciando o curso no ano seguinte.

Devido ao cargo de grande responsabilidade que exerceu, desde o início, na Telephonica, onde era o principal executivo, não podia cursar todas as disciplinas previstas para cada semestre, vindo a concluir o curso somente no ano de 1917.

Em 1918 casou-se com Marietta Mello, filha do comerciante Alfredo Gomes de Mello e de sua mulher, Annita (Anna Emilia) Fagundes de Mello.

O casal teve cinco filhos: Maria, Dora Rachel, Joaquim Alfredo, Anna Luiza e Beatriz (que morreu um mês depois de seu primeiro aniversário).

Oscar dedicou toda sua vida profissional à Telephonica Rio Grandense, permanecendo naquela Companhia mesmo depois que a empresa americana International Telephone and Telegraph Corporation (ITTC) assumiu o controle acionário, em 1927. Morreu no dia 22 de julho de 1949, com a idade de 62 anos, quando se encontrava a serviço, no Rio de Janeiro, em conseqüência de um infarto.

Era profundamente admirado por todos que o conheciam, pela dedicação à familia e ao trabalho, por sua generosidade e pela firmeza de seu caráter. No santinho que, como era costume na época, foi distribuído durante a missa celebrada no sétimo dia de sua morte, constam estes dizeres: “Ele foi perfeito em todos os atos de sua vida. Era a creatura que todos nós admiravamos, aquela com quem desejariamos nos parecer.”

11 maio 2007

A História do Telefone - Jornal "A Noite" 15-04-1947

A História do Telefone


Não vamos falar de Alexandre Graan Bell. Embora mereça a nossa reverência, é figura que está muito para trás. Não estamos aqui como Prometeu, em cima do rochedo, olhando para o fantasma do passado... Vamos falar do Sr. João Ganzo Fernandez, uma das figuras empreendedoras e que tanto tem contribuído para o progresso do Brasil. Desses homens que se pode apontá-lo e dizer: "é desses que constroem o mundo". Foi o Sr. João Ganzo Fernandez que, em 1908, fundou no Estado do Rio Grande do Sul a Companhia Telefônica. A êle também coube, em 1920, o privilégio de montar na capital gaúcha a primeira estação telefônica automática, que seria, como afirmam vozes autorizadas, a primeira etapa do telefone automático no Brasil e na América do Sul. Já em 1927, o Sr. João Ganzo Fernandez, que ama o trabalho, que se enternece ante qualquer realização, lança as diretrizes da Companhia Telefônica Catarinense, que tantos benefícios presta ao Estado. Hoje, em quase todo território de Santa Catarina, em 29 localidades, os fios da Telefônica Catarinense cruzam os seus postes estão fincados como mastros de bandeiras do progresso.



Autor desconhecido.

06 maio 2007

Homenagem a Américo Machado

Don Americo Machado, sua esposa Gilda Jesús e seus netos.

Recebi esta manhã um e-mail do nosso primo Rodolfo Miguel Bia Ganzo. Como sempre, Rodolfo é muito carinhoso em suas palavras, em seus sentimentos.
Uma pessoa muito especial, típico da linhagem dos Ganzo que conheço... todos muito especiais.
Rodolfo homenageia seu sogro, uma pessoa também especial, que agregou àquela família amor, fé, esperança e alegrias. Predicados de uma família feliz e que sempre irá honrar suas linhagens genealógicas.
Publico aqui a sua homenagem e lhes oferecemos nossas condolências.

Um grande abraço!

Maurício Ganzo Pereira


"Querido primo,
Si tu estas de acuerdo me gustaría publicar en tu blog unas palabras en homenaje a mi querido suegro quien como sabes falleció recientemente.
Se que el no era Ganzo pero me gustaría mucho poder honrarlo a través de tu sitio.
Te adjunto además de lo escrito, tres fotos para que tu elijas si poner las tres o algunas de ellas en particular.
Bueno por el momento nada mas, solo desear que todos ustedes estén bien.
Un abrazo desde Montevideo, Rodolfo."

Don Americo Machado nasceu em 12 de outubro de 1920


Mi suegro fue una de esas personas simples pero auténticas que dan ejemplo de vida mientras viven.

Don Américo era una persona muy creyente, por lo que para hablar de él usare una metáfora que leí cuando pequeño, pero que quizás las nuevas generaciones no conozcan. Pero primero déjenme contarles lo que sé acerca de su historia.

De pequeño recibió golpes de la vida, o para los que son muy creyentes como lo era él, le toco ser probado por el señor. Siendo aun pequeño su madre lo dejo al cuidado de su abuela y partió a trabajar a la capital del país de donde con el paso del tiempo nada mas se supo de ella. Este fue un golpe enorme para Américo quién trabajaba ya de muy joven como peón rural, y mas tarde sería capataz (querido como un padre) y también chofer (motorista) de camión.

Pese a todas las tribulaciones Américo no perdió su fe y continuo sirviendo a Dios.

A los 26 años se caso con la que sería su compañera por mas de 61 años (Dña. Gilda), quien le dio 10 hijos a los que criaron con amor en el medio rural y mostraron el camino a seguir. Como me contó una de sus hijas (Gabina, desde hace 17 años mi esposa), el siempre les repetía con su voz de cadencia segura y apacible que debían prepararse (estudiar) para ser mejores personas. Y esto es lo que los 10 hermanos hicieron, por lo que Don Américo debe estar muy orgulloso.

De no tener familia Don Américo pasó a tener una hermosa y gran familia, con muchos hijos y nietos, que lo rodearon y con el transcurso del tiempo le devolvieron algo del amor que él había puesto en ellos.

Querido y respetado por todos los que lo conocieron vivió una vida como decía simple pero hermosa y su fe nunca decayó.

Ahora bien cuentan que en su tierra en el departamento de Rivera un adivino con dones de profetización anunció que el día 4 de Marzo de 2007 Dios llevaría con él al hombre mas rico de ese departamento, por lo que muchos grandes hacendados comenzaron a tomar recaudos y hasta algunos contrataron médicos particulares para pasar aquel día.

Pero con el transcurso de las horas y al advertir que ya había pasado la fecha señalada todos pensaron que la profecía no se había cumplido, ya que al leer los obituarios solo figuraba el nombre de Américo Machado.

No obstante asegura el profeta que la profecía si se cumplió ya que ese día Dios llamo con él a uno de sus siervos mas fieles y al que por ese entonces era el hombre mas rico del departamento de Rivera.


Rodolfo Miguel Bia Ganzo

03 maio 2007

Iaiá querida

Iaiá, com o tio Carlos Alberto Ganzo Fernandez e minha mãe, Clorinda Ganzo Fernandez, em 1941.

Há alguns dias, após receber do João Alberto uma foto inédita da Iaiá, venho soliciatando minha mãe para escrever sobre ela. Levou dias, mas finalmente me entregou seu texto.
Para mim, no auge dos meus 40 anos de idade, as lembranças ora são carinhosas, ora hilariantes... Iaiá era uma mulher de personalidade muito forte. Pequenininha, mas com um coração gigante! Não havia quem não gostasse dela... prestativa, às vezes mandona... ela era ela mesma, personalidade forte e nem aí para os outros. Sempre tratáva-nos como seus filhos. Havia amor naquela mulher... muito amor.
Nós, netos de Juan Carlos Ganzo Fernandez e Albertina Saikowska de Ganzo, sentimos uma imensa alegria em relembrar desta linda criatura de Deus. Deus te abençõe Iaiá, te amamos!





Palavras de Clorinda Ganzo Pereira (Pochi):

"Faz muitos dias que não sinto ânimo para escrever. Minha vida deu uma reviravolta, parece que ficou de "ponta cabeça", mas hoje, falando sobre meus filhos na clínica de fisioterapia (onde faço fisioterapia para meu pé), falei muito da Iaiá. Ela faz parte integrante da minha vida e da de meus filhos.
Maria Luiza Rodrigues (Iaiá) começou a trabalhar na casa da mamãe dia 05 de janeiro de 1938, três dias antes de eu nascer.
Mamãe me contava que ela veio pedir emprego com uma filha de 8 anos, a Beatriz, que até hoje é uma querida amiga.
Não sabia a idade que tinha, pois só foi registrada em Palhoça(SC), onde nasceu, pelo meu pai.
Ela contava que a mãe dela tinha sido escrava e trabalhava na casa do governador Hercílio Luz como cozinheira. O fogão era de lenha e ela, com 8 anos já ajudava a mãe em cima de um caixote para ficar da altura.
Iaiá se tornou figura folclórica na rua Boacaiúva (Florianópolis, SC), onde morávamos. Todos a conheciam e a amavam... Era bondosa, caridosa, alegre, espirituosa. Era demais!
Tinha horror a tirar fotos. Por isso, quase não temos fotos dela. Quando sentia que iam bater fotos, saia rápido.
Quando tive meu 1° filho, ela sai pelas casas da nossa rua avisando a todos que eu tinha ganho um menino. No segundo filho, a mesma coisa. No terceiro, igual. No 4°, ela já dizia: "Outro menino!". Nos 5° e 6° filhos então, ela só dizia: "Não tem geito, só dá menino!".
Mas ela ficava contente com os meninos, amava todos, me ajudava muito com as crianças.
A Beatriz me fazia cachinhos nos cabelos todos os dias.
Iaiá faleceu dois anos após a morte do papai (Juan Carlos), ela sentiu muito a morte dele.
Morreu como um passarinho, como ela queria. Sempre dizia que estava contribuindo para um lar de velhos, porque não queria perturbar ninguém. Mas faleceu dormindo, na casa de meu irmão Beto.
Morreu como todos querem morrer... sem sofrer! Mereceu!"

25 abril 2007

A Família de Pedro Duque de Saavedra e Virgínia Ganzo Duque


Nesta foto, enviada por Carlos Saul Duque, aparecem, Alfredo Fedrizzi (esposo de Flor de Maria), Flor de Maria e alguns de seus irmãos: Teresa, Adão, Maria Ester, Amélia e Moisés e ao centro, Mamá Virgínia (sua mãe).
Flor de Maria foi uma das filhas de Virginia Ganzo Duque e Pedro Duque de Saavedra. Ela casou-se com Alfredo Fedrizzi e mudou-se para Caxias do Sul/RS.


Na localidade de Las Piedras, um distrito do Departamento de Canelones, na República Oriental do Uruguai, vivia um casal de imigrantes espanhóis: Pedro Duque de Saavedra e Virgínia Duque Ganzo. Ambos vieram das Ilhas Canárias. Ele de Lanzarote e ela de Santa Cruz de Tenerife. Conheceram-se na América, namoraram e casaram. Pedro conheceu Virgínia por intermédio de Juan Ganzo, irmão dela. Os dois, trabalhando juntos, introduziram no Uruguai os serviços telefônicos; anos depois realizaram o mesmo serviço no estado do Rio Grande do Sul, para onde vieram.
Depois de trabalhar na implantação dos serviços de telecomunicações uruguaios, Pedro tornou-se fazendeiro, especializado na criação de gado. Teve duas fazendas: uma no Uruguai, onde residia, e a outra no município gaúcho de Itaqui, onde morava seu filho mais velho, Angel.
Ainda em Las Piedras nasceu sua filha, que foi batizada com o nome de Flor de Maria. Isto aconteceu a 12 de julho de 1907. (...)
(...) Aos dez anos de idade Flor de Maria mudou-se, juntamente com seus pais, para Porto Alegre, no Brasil. (...)

Flor e Alfredo, 50 anos
Capítulo III, págs. 29 e 30
Publicado pela CooJornal

Pedro Duque de Saavedra e Virgínia Duque Ganzo
Mudaram-se para Porto Alegre em 1917
Pedro Duque, após aposentar-se, foi gerente do Zoológico Ganzo em Porto Alegre (atual rua Ganzo).

Obs. Agradecimento especial ao primo Carlos Saul Duque. Obrigado Carlos, sem sua ajuda não seria possível reconstituir esta hitória.

24 abril 2007

Irmãos

Vendo esta foto, pensei... como a nossa vida passa rápido! Num momento somos crianças cheias de vitalidade, correndo entre as asas de nossos pais e querendo alçar vôos independentes. Queremos ser grandes, adultos! Apressamos nosso relógio da vida para que o tempo vôe. E ele voa... vai fluindo... nos levando... e a nossa infância vai ficando para trás, tímida, quase sem lembranças.
Já adultos, começamos a nos preocupar com a velhice e a perceber como éramos bobos em querer ser adultos... pra quê? Uma pergunta que após anos de crescimento, torna-se forte o bastante para com sua força derrubar-nos ao chão e implorar por vitalidade e a eterna juventude. Mas é tarde demais! Nossas preocupações de adulto consomem nossas vidas e deixamos de apreciar demasiadamente sua beleza. Bate o arrependimento de não mais termos mantido nossos laços familiares, de não mais termos visitados nossos entes queridos. Percebe-se tarde demais que os tempos são outros e não há como voltar!
Amigos, primos, tios, a todos os que me tem na estima, desculpem-me por ser tão individualista, por não os conhecer. A vida nos prega peças e esta é apenas mais uma delas. É uma pena, mas como muita coisa nesse mundo, há de se dar um jeito.
Gostaria sim de conhecer meus primos, tios... todos! Seria uma grande honra saber seus nomes, idades, famílias... sua história! Aqui apenas escrevo uma mínima parte da que passou!

Nesta foto acima, revejo a tia Bertita Ganzo Fernandez ao lado de seus irmãos, Edson, Franklin e Diamela. Todos já com idades avançadas. Quantos anos se passaram... não estão mais aqui... ficaram as fotos e a saudade!

Vivam suas vidas da maneira mais sensata. Não apressem o relógio, cuidem bem dele, para que não venha a parar em uma de suas voltas tão cedo. A vida é preciosa e todos nós precisamos de muito mais do que saúde para mantê-la, precisamos de paz e de muito amor. Cuidem-se e não arrisquem demasiadamente. Revejam seus conceitos... vale a pena mudar. Só sentimos que erramos quando já foi... já era! "Ainda dá tempo" como diz um amigo meu. É verdade... ainda dá tempo!

Os Ganzo Que São Duque

Pedro Duque e Juan Ganzo Fernandez.
Pedro Casou-se com Virgínia Ganzo Fernandez, irmã de Juan.Mudaram-se para Porto Alegre/Brasil em 1917. Seu filho Saul Carlos Ganzo Duque mudou-se para Santa Catarina junto com seu tio Juan Ganzo Fernandez, na ocasião da instalação da Cia. Telefônica Catarinense, provavelmente no ano de 1927. Saul já estava casado com Carlota Sanches e tiveram três filhos: Carlos Duque, Gil Duque e Solange Duque. Desde então, o sobrenome Ganzo não é mais utilizado! Gil Duque é o pai das primas Denise, Kiti, Eliane e Rosane Duque. E Carlos Duque é o pai do primo Carlos Saul, Letícia e Guilherme Duque.




Olá minha família... primeiramente quero lembrar-lhes os motivos que me levam a escrever neste blog: Resgatar nossas origens, descobrir nossos familiares, reunir nossa família. E é isto que irei tratar hoje, com emoção!

Poucos dias atrás, em conversa com minha mãe sobre os Ganzo, perguntava eu a respeito de um tio que minha mãe já havia comentado e que ela lembrava o nome, dele e de alguns outros: Saul Duque, Solange Duque, Adão Duque... e lembra que o Saul Duque tinha um hotel (Hotel Duque ?) em Blumenau. Pois bem, lembrou-se também de ter conhecido uma prima que teria feito ginástica na Academia Albertina Ganzo de Danças, de sua propriedade. Questionei o nome desta prima e pedi para que minha mãe localizasse a ficha de matrícula e talvez o telefone. Naquela mesma noite, minha mãe ligou para o número encontrado e deixou recado. Ligou-me em seguida passando o número e da mesma forma... deixei recado! A surpresa foi que no dia seguinte, esta prima nos retorna a ligação... seu nome: Denise Franco Duque! Afinal, encontrei mais primos espalhados. Que legal... estou tão feliz! Agora, já pude trocar idéias, dados que faltavam para a árvore genealógica e também novos amigos.
Estamos agora todos adicionados ao Orkut e podemos nos comunicar há qualquer momento.
Soube também, que seu avô, Saul Duque, deve ter se desentendido com os familiares na época, a ponto de não assinar mais o sobrenome Ganzo. Assim, todos de sua descendência acabaram por anexar apenas o Duque ao sobrenome. Ora... ainda são os Ganzo, primos, família.
É um prazer enorme poder lhes conhecer. Sejam bem-vindos à família Ganzo!
Através da Denise Duque, já contactei com Cristiane Duque, Eliane Duque e o primo irmão delas, Carlos Saul Duque.
Agora, vamos tentar juntos levantar mais dados, mais fotos, mais histórias... tentar nos reunir e de uma vez, esquecer as diferenças entre os familiares... vamos penasar positivo e sentir o prazer de termos uma família.
Um grande abraço a todos e uma ótima semana!!!

Obs. Tive o imenso prazer de receber mais alguns detalhes desta história. Desta vez, do primo Carlos Duque, filho de Saul Duque. Conta-me ele que Saul Duque teve dois hotéis em Blumenau. O primeiro era o Hotel das Palmeiras e era de propriedade da família. Após vendê-lo, arrendou o segundo, que se chamava Hotel Holletz.

23 abril 2007

Refinaria Ipiranga e Juan Ganzo - Outra reportagem

Juan Ganzo Fernandez de terno branco a esquerda e Juan Carlos Ganzo Fernandez, quarto a direita (terno cinza).

Mais uma reportagem sobre a venda da Ipiranga! O nome de Juan Ganzo Fernandez é mais uma vez lembrado. O único lamento é o fazerem após 50 anos de sua morte!





Luis Nassif: A saga da Ipiranga

Luís Nassif / Gazeta de Ribeirão
A saga da Ipiranga
Vendida na semana passada para a Petrobrás, Brasken e Ultra, a Ipiranga é a própria história do setor petrolífero brasileiro. Foi a primeira refinaria a operar comercialmente no Brasil, em Uruguaiana, abastecida por petróleo cru da Argentina.
Em 1933, o pecuarista brasileiro João Francisco Tellechea, junto com Eustáquio Ormazabal, comerciante e pecuarista argentino naturalizado brasileiro, mais os argentinos Raul Aguiar e Manuel Morales, e Varela, grande advogado argentino, decidiram criar uma pequena empresa de derivados de petróleo, a Destilaria Rio-Grandense de Petróleo. Começou a operar em 26 de novembro de 1934, com produção de cerca de 400 barris/dia.
O transporte de matéria prima era desafio parecido com o de Aníbal, o Cartaginês, para chegar a Roma. Os navios-tanque, com petróleo cru, contornavam o sul do continente, atracavam no porto de Buenos Aires, de onde o petróleo ia de trem até a argentina Paso de los Libres, cruzava o rio Uruguai em uma chata-tanque e era desembarcado direto na Destilaria.
A Destilaria tinha pouco mais de um ano de vida quando, em 1936, o governo Perón proibiu a reexportação de petróleo a partir do território do país. Fixava um prazo de doze meses para interromper definitivamente o fluxo.
Um segundo grupo de empresários do cone sul –os uruguaios
Juan Ganzo Fernandez, Numa Pesquera, Luiz Julio Supervielle e os brasileiros Her Ribeiro Mattos e Oscar Germano Pedreira – tinham planos para uma segunda destilaria, em Santana do Livramento, na fronteira com Uruguai, de onde contavam trazer o petróleo cru.
Percebendo as dificuldades, os dois grupos decidiram unir esforços. A solução encontrada foi juntar os capitais e construir uma nova unidade, na cidade do Rio Grande, para armazenar 80 mil barris de petróleo cru. Em 6 de agosto de 1936 nascia a Ipiranga S.A. Companhia Brasileira de Petróleos. O custo da refinaria era de 12 milhões de dólares. O capital foi dividido em partes iguais entre os brasileiros, os argentinos e os uruguaios.
A criação do Conselho Nacional de Petróleo, pelo Decreto-Lei n° 395, de 29 de abril de 1938, interrompeu os planos. O setor foi nacionalizado, obrigando os acionistas estrangeiros a venderem sua parte. O advogado Varela representava na Argentina o escritório de Eduardo Americano , onde trabalhava o jovem advogado João Pedro Gouvêa Vieira. Por indicação de Varela, João Pedro foi incumbido de fazer a petição para o presidente do CNP, solicitando que não aplicasse efeito retroativo à lei.
Fartos do Brasil, os argentinos ofereceram a João Pedro sua parte no negócio. A entrada seriam os honorários devidos. O restante seria pago em dez anos.
À medida que a Ipiranga foi crescendo, para subscrever os aumentos de capital João Pedro foi vendendo parte de suas ações a Francisco Martins Bastos, grande amigo e engenheiro responsável pela montagem da Ipiranga.
Nos anos 30, a Ipiranga foi fruto de uma fantástica visão modernizadora, de grupos familiares juntando seus capitais. Em 2007 foi vítima do anacronismo, de não ter sabido como estabelecer uma governança que colocasse a empresa a salvo das disputas familiares.
Refinarias 1
Quando houve a montagem das primeiras refinarias brasileiras, em 1945, o líder da Ipiranga, João Pedro Gouvêa Vieira, foi pressionado pelo coronel João Carlos Barreto, diretor do Conselho Nacional do Petróleo (CNP) a se transformar em uma espécie de testa-de-ferro da Golf Petróleo, petrolífera americano que tentava enfrentar o domínio da Standard Oil no Brasil. Barreto substituíra o coronel Horta Barbosa no CNP.
Refinarias 2
Na licitação promovida pelo CNP, o critério utilizado foi o das relações pessoais e políticas. Embora sem tradição na área, e sem capitais, foram beneficiados os grupos Soares Sampaio e Peixoto de Castro. Depois de obtidas as concessões, eles trataram de ir atrás de sócios que dispusessem de capital e de conhecimento. Apesar de pioneira, a Ipiranga se considerou prejudicada pelas regras de concessão.
Refinarias 3
A refinaria precisava produzir quatro produtos básicos para colocar no mercado, mas a legislação os obrigava a colocar quantidades iguais de gasolina, diesel, óleo querosene e óleo combustível. Havia dificuldade na colocação do óleo combustível, devido a problemas de armazenamento, o que dificultava a colocação dos demais subprodutos. Esse era um dos fatores que inviabiliza um refino brasileiro.
Refinarias 4
Mas o principal problema era a concorrência com os importados. A defesa do setor era uma lei que proibia as companhias estrangeiras de importar produtos de petróleo produzidos internamente. Mas ela nunca havia sido aplicada. Quando o coronel Barreto perguntou a João Pedro o que poderia viabilizar as refinarias, ele indicou a lei. O governo Vargas passou a aplicar, então, a lei, viabilizando as companhias.
Refinarias 5
O grande apoio que o Brasil teve para o sucesso da lei foi o trabalho persistente do embaixador americano Adolfo Berle Jr que passaria injustamente para a história como golpista. Especialista em direito econômico, percebera o mal que a concentração produzia, além de ter testemunhado os estragos que as sete irmãs petrolíferas fizeram em outros países latino-americanos, especialmente na Venezuela.
Refinarias 6
Coube a Berle Jr rebater o formidável poder da Standard Oil. Sua atuação só veio a público nos anos 90, quando o historiador Stanley Hilton divulgou as correspondência diplomáticas e a extraordinária atuação de Adolfo Berle Jr em favor do Brasil. Ele fazia parte dos homens de Roosevelt, que ajudaram na implantação da New Deal, o programa de recuperação econômica americana dos anos 30.



Blog: www.luisnassif.com.br

19 abril 2007

A Petróleo Ipiranga e Juan Ganzo Fernandez

Juan Ganzo Fernandez aos 50 anos.


Na minha incansável busca por dados que possam nos reconstituir a obra e a vida de nossos antepassados, mais uma vez vasculhava a internet e por coincidência, deparei-me com estes artigos publicados no Jornal Agora de Rio Grande, RS, datados de 10 e 17 de abril (sábados).
Lendo o artigo, percebe-se que fôra dividido em capítulos... provavelmente, 3 capítulos que estão sendo publicados semanalmente. Aqui, trago os capítulos 1 e 2 da matéria. No sábado, 21 de abril de 2007, estarei publicando o terceiro capítulo.
Os links diretos às páginas deste jornal são estes: http://www.jornalagora.com.br/site/index.php?caderno=46¬icia=30054
http://www.jornalagora.com.br/site/index.php?caderno=46&noticia=30309



Refinaria Ipiranga: o grão de areia que virou montanha

Há trinta anos atrás, um dos fundadores da Refinaria Ipiranga o Eng. Francisco Martins Bastos publicou um artigo chamado Nossa História na Revista Ipiranga (nº 68, ano 1977). Era a edição comemorativa aos 40 anos do surgimento da refinaria, a qual, neste ano de 2007, está completando 70 anos de existência. A transcrição que começa a ser feita nesta edição busca divulgar aos leitores a visão da história da Refinaria a partir de um dos principais personagens de sua trajetória: o engenheiro Bastos. Neste momento em que a empresa passa a ser administrada pela Petrobrás, amplia-se em nível local o interesse pela história e acontecimentos ligados a Ipiranga, que teve por berço Rio Grande e que daqui ramificou-se em empresas petroquímicas e de distribuição, que chegaram a um capital de bilhões de dólares.



AS PRIMEIRAS INICIATIVAS



No prefácio do artigo, Francisco Martins Bastos destacou as motivações que o levaram a escrever: "A história de um País ou de uma Companhia, poderá ser romanceada, diante de fatos passados que a imaginação do historiador faz aparecer como verídicos, uma vez que as fontes fiéis de informação são, muitas vezes, difíceis de ser encontradas. Nosso intuito ao escrevermos a história da Ipiranga é justamente evitar que – para o futuro – seja criado esse romance em torno dos fatos e aparecimentos da nossa Companhia, uma vez que hoje, para felicidade de todos, aqui trabalham muitos dos que colocaram as pedras dos alicerces da nossa Empresa e que poderão, como testemunhas, confirmar aquilo que nos propusemos escrever. Procuramos orientar a história da Ipiranga de forma honesta, clara e mais sucinta possível, sem prejudicar, com esta última característica, a apreciação detalhada dos eventos mais importantes. Desejamos, por outro lado, que todos os que aqui labutam possam dizer, sempre que necessário, como foi constituída a nossa Companhia, bem assim como ela se desenvolveu. Se alcançarmos esse desideratum sentir-nos-emos muito felizes e, acreditamos, teremos contribuído para que a nossa Empresa seja conhecida e admirada, pois é sabido por todos que ela nasceu como um grão de areia, sendo hoje uma montanha.
Para estudarmos a vida da Ipiranga, teremos de remontar à constituição da primeira refinaria de petróleo do país, a Destilaria Rio-grandense de Petróleo S/A, de Uruguaiana (RS), ali constituída em março de 1933, e que teve o início de sua operação no dia 26 de novembro de 1934. Um grupo de capitalistas de Uruguaiana que, por razões de ordem comercial ligadas ao mercado do Rio Grande do Sul, transacionava na Argentina, ficou, por esse motivo, vinculado a elementos que, naquele país, atuava, também, na indústria do petróleo. Foi assim que os comerciantes Eustáquio Ormazábal e João Francisco Tellechea, radicados em Uruguaiana, mantiveram contatos com os também comerciantes Raul Aguiar e Manuel Morales, este último forte acionista de uma pequena refinaria de topping localizada em Avellaneda, província de Buenos Aires, conhecendo, portanto, comercialmente, o problema do petróleo e seus derivados. Resolveram, essas pessoas, de comum acordo, montar uma refinaria similar à primeira, na cidade de Uruguaiana, nas margens do rio Uruguai, em frente à cidade Argentina de Passo de Los Libres. Encarregou-se do projeto o Eng. Esteban Polanski. O petróleo seria enviado à nova refinaria, em trânsito pela República Argentina até o porto de Buenos Aires, e dali transportado em vagões-tanques a Passo de Los Libres. Baldeado para uma chata-tanque, seria finalmente descarregado nos tanques da refinaria que se situava no outro lado do rio Uruguai.
A matéria-prima destinada a então primeira refinaria nacional, a Destilaria Rio-grandense de Petróleo S/A, era de origem equatoriana e adquirida da Lobitos Oilfields Limited. Trazido do terminal equatoriano até Buenos Aires, o petróleo era armazenado em tanques, pela própria transportadora, a Companhia General de Combustibles. Matéria-prima magnífica, utilizada, havia alguns anos, pela Refinaria El Condor, da Argentina. Assim, a Destilaria atendia inicialmente às praças de Uruguaiana, Alegrete, Quarai e Itaqui.
Entretanto, mal principiara a funcionar quando o governo argentino – no ano de 1937 – por um decreto-lei, proibiu a reexportação de petróleo através do seu território. Respeitou, porém, os contratos vigentes na ocasião dando uma demonstração de justiça. Concedeu à Destilaria Rio-grandense de Petróleo, S/A, o prazo de um ano para regularizar a situação, quanto à matéria- prima necessária à sua indústria. Após a expiração do prazo, ficaria impossibilitada de receber petróleo através de Passo de Los Libres. De um momento para outro, portanto, a Destilaria Rio-grandense ficou com um grave problema a resolver, com respeito ao suprimento do petróleo de que carecia.

CONSTITUIÇÃO DA REFINARIA

Procurou-se, então, a única solução viável para o caso: a instalação de um tanque de 80.000 barris no porto do Rio Grande. Receberia naquele tanque o petróleo bruto e o despacharia em vagões-tanques até Uruguaiana. Ao mesmo tempo em que a Destilaria Rio-grandense de Petróleo S/A, procurava uma solução para o seu suprimento, um grupo de capitalistas uruguaios entrava em entendimento com elementos brasileiros, para montagem de uma pequena refinaria em Santana do Livramento (RS), a qual deveria receber a matéria-prima em trânsito pela vizinha República Oriental do Uruguai. Esse grupo era integrado pelos senhores Juan Ganzo Fernández, Numa Pesquera, Luís J. Supervielle e Abel Pesquera.
As pessoas que faziam parte da Destilaria de Uruguaiana e da projetada refinaria de Santana do Livramento mantinham entre si relações de amizade, e, assim, não foi difícil encontrar-se um denominador comum que, indo ao encontro dos interesses de ambos os grupos, resultou na montagem de uma pequena refinaria no Rio Grande (RS) ao invés de seguir, cada grupo, os seus projetos iniciais.
A montagem da refinaria no Rio Grande visava evitar que a matéria-prima, armazenada no tanque de 80.000 barris, ficasse por um longo tempo sem ser utilizada, o que representaria uma imobilização muito grande de capital. Por outro lado, essa pequena refinaria utilizaria parte da matéria-prima estocada que não fosse empregada, de imediato, pela Destilaria Rio-grandense. Haveria, assim, uma mais rápida utilização do petróleo bruto recebido. Das conversações mantidas entre os dois grupos, resultou como melhor solução à montagem da refinaria no Rio Grande, para o que se constitui uma sociedade com a denominação de Ipiranga S/A, Companhia Brasileira de Petróleo. O ato de constituição dessa sociedade foi realizado em Porto Alegre, no dia 6 de agosto de 1936, assinando os representantes dos três grupos interessados. Pelo lado brasileiro, os srs. Eustáquio Ormazábal, João Francisco Tellechea, Her Ribeiro Mattos e Oscar Germano Pereira; pelo argentino, os srs. Manuel Morales e Raul Aguiar; pelo uruguaio, os srs. Juan Ganzo Fernandez, Numa Pesquera, Luís J. Supervielle, Carlos Alberto Clulow, Manuel Ferrería e Abel Pesquera. A primeira diretoria da Ipiranga S/A, Companhia Brasileira de Petróleo, ficou assim constituída: srs. Manuel Morales, Numa Pesquera, Eustáquio Ormazábal, Luís J. Supervielle, Her Ribeiro Mattos e Abel Pesquera.
As providências iniciais da Diretoria eleita tiveram como objetivo obter um terreno para a montagem da refinaria, e conseguir vagões-tanques para o transporte do petróleo bruto que deveria abastecer a Destilaria Rio-grandense de Petróleo S/A, em Uruguaiana. A Viação Férrea do Rio Grande do Sul adquiriu, então, os vagões necessários aquele transporte. O Governo do Estado, que tinha como mandatário o General José Antônio Flores da Cunha, cedeu, por arrendamento, 4 hectares de terra, localizados em frente ao porto do Rio Grande, junto à antiga Cia. Swift do Brasil S/A, a fim de que, nessa área, fosse instalada a nova indústria, que muito interessava ao nosso Estado". Na próxima edição terá continuidade a transcrição deste artigo de Francisco Martins Bastos. Nas fotos, a Refinaria Ipiranga em 1943.



O grão de areia que virou montanha II


Tem continuidade a transcrição do artigo do Eng. Francisco Martins Bastos chamado Nossa História na Revista Ipiranga (nº 68, ano 1977). O título da matéria "o grão de areia que virou montanha" foi retirado do próprio artigo de Bastos. Em seu relato, constata-se as grandes dificuldades para operacionalizar a refinaria em seus primórdios, num esforço continuado de administrações que se ramificou na distribuição, petroquímica entre outras atividades. O resultado de 70 anos de atividades está na recente venda do grupo quando os valores do negócio chegaram a 4 bilhões de dólares, o maior negócio já realizado na história do Rio Grande do Sul.
Nos banhados, surge a refinaria
"Como o Eng. Esteban Polanski se encontrasse acidentado na cidade de Buenos Aires, não lhe foi possível tomar o encargo de projetar a refinaria de petróleo a ser instalada no Rio Grande (RS). Dessa forma, encarregou-se do projeto o Eng. Eduardo Elli, tendo ficado estabelecido que a capacidade da refinaria seria de 1.500 barris por dia, sendo a matéria-prima fornecida pela Lobitos Oilfelds Ltd. Preparado o projeto e feita a compra da maquinaria que se tornava indispensável, foi providenciado o embarque do equipamento para o Rio Grande.
Tornou-se, porém, necessário obter permissão do Governo da União, que embargou a construção da refinaria, na área que o Estado lhe havia cedido por arrendamento. Alegou, para isso, que faltava ser referendado pelo Governo Federal o ato do governo gaúcho e que a área não poderia ser usada para o fim previsto, uma vez que havia um decreto-lei aprovando um plano de urbanização da mesma. Somente mediante um novo decreto anulando o anterior e depois de outro cedendo a área – que já havia sido arrendada – é que se poderia dar a licença federal para localização, ali, de uma indústria...
Diante desse impasse de solução difícil, para não dizer impossível, dada a premência do tempo, resolveu a diretoria procurar uma forma para resolver a questão, adquirindo uma área onde fosse possível instalar a refinaria, cuja maquinaria, em grande parte, já se encontrava no Porto do Rio Grande.
A solução não era fácil, porque o terreno a ser comprado deveria preencher uma série de condições, que o tornavam difícil de encontrar numa cidade antiga como o Rio Grande. Essas condições eram: área de 10 a 12 hectares; fácil ligação ao cais do porto através de oleoduto; fácil ligação à rede de água potável da cidade; fácil ligação à rede elétrica; ligação à linha da Viação Férrea e possibilidade de acesso rodoviário da refinaria à cidade. Sendo as dificuldades quase intransponíveis, vieram, todavia, evidenciar a grande vantagem de possuir a cidade um administrador inteligente, dinâmico e homem de visão. O Eng. Antonio Meireles Leite, então Intendente Municipal, não se deixou amedrontar pelas dificuldades surgidas e resolveu enfrentá-las, cooperando, ao máximo, para que a solução fosse encontrada. Procurou ele assim evitar que a nova indústria deixasse de se instalar no Município por falta de eficiente colaboração do poder público. Depois de um estudo minucioso do problema, chegou-se à conclusão que os únicos terrenos que preenchiam as exigências eram os localizados nos banhados do terrapleno Oeste. Esses terrenos, embora fossem mangues, poderiam ser aproveitados, uma vez aterrados. Ficavam perto do cais do porto, da rede hidráulica, da rede elétrica e, por eles, passava a linha da Viação Férrea.
A Intendência procurou então facilitar a solução do problema adquirindo do dr. Antonio Bento Primo duas áreas de terreno no terrapleno Oeste por 50:000$000 (cinqüenta contos de réis). Uma dessas, 12 hectares, foi imediatamente cedida, por venda, à Ipiranga pelo mesmo valor, fiando a Intendência, gratuitamente, com a outra área de 6 hectares, aproximadamente, no prolongamento da rua Duque de Caxias, por ter servido de intermediária no negócio. Ganhou, pois, a cidade do Rio Grande, graças à ação de seu intendente municipal, uma nova indústria e uma área de terreno. Estava vencida a primeira parte da batalha. O terreno havia sido conseguido, mas era um banhado sem qualquer acesso, a não ser a linha da Viação Férrea que passava em frente. Tratou-se com urgência de providenciar o aterro.
Mediante pagamento, o Governo do Estado autorizou que a draga que se encontrava em frente à estação marítima da Viação Férrea fizesse o recalque do aterro hidráulico necessário – cerca de 120.000 metros cúbicos – a fim de tornar o terreno em condições de receber as instalações da refinaria.
Diante da boa vontade encontrada por parte do Governo do Estado, do Governo do Município e da administração do porto local, iniciou-se imediatamente o aterro citado e, à medida que progredia, iam sendo levantados os edifícios que se tornavam mais necessários para o funcionamento da refinaria projetada. Iniciado o aterro em novembro de 1936, graças ao trabalho desenvolvido, já em 7 de setembro de 1937 a Ipiranga S/A, Companhia de Petróleos iniciava as suas atividades comerciais.
A fase de instalação, propriamente dita, havia sido vencida. O projeto fora executado com uma rapidez verdadeiramente surpreendente, considerando os recursos com que contávamos, naquela época, no Rio Grande. Os grandes problemas, entretanto, começavam a aparecer, pois numa refinaria, como em toda indústria, a máquina representa unicamente uma parcela da atividade. A outra, a mais importante, é o elemento humano, que faz essas máquinas produzirem dentro de satisfatórias condições técnicas e econômicas.
A indústria da refinação de petróleo era uma novidade no Brasil e, além disso, uma iniciativa ousada de um grupo de sul-americanos que, estimando a nossa terra, desejava encontrar uma solução para o problema que mais tarde viria a empolgar todos os brasileiros, os quais reconheceriam como de verdadeira importância para o país.
Não possuímos, entretanto, técnicos especializados em petróleo; também não dispúnhamos de operadores para as unidades da refinaria. Nas escolas de engenharia, a palavra petróleo praticamente não aparecia nos livros que usávamos e, em verdade, era um assunto desconhecido dos professores. Logo, os técnicos formados no Brasil eram alheios ao problema. Era, porém, entre esses técnicos, que a nova indústria deveria ir procurar os elementos que, mais tarde, representassem a garantia do sucesso da organização que surgia. O engenheiro que projetara a refinaria, por razões que aqui não cabem mencionar, desentendeu-se com a administração superior da sociedade, e os seus serviços foram dispensados.
Para trabalhar como operadores na nova indústria, foram enviados da Argentina três capatazes que se diziam experts em petróleo. Segundo alguns dos diretores, vinham com uma grande bagagem de conhecimentos teóricos e práticos, que os habilitavam como operadores de unidade de topping na Argentina. No primeiro contato com esses técnicos – ou melhor, com esses capatazes – verificamos que desconheciam completamente o problema. Apesar disso, possuíam maior experiência do que os elementos com os quais poderíamos contar aqui no Rio Grande, pois enquanto os capatazes argentinos já tinha lidado com petróleo, de uma forma ou de outra, os nossos nunca haviam visto essa substância!" Na próxima edição, terá continuidade a transcrição deste artigo de Francisco Martins Bastos. Nas fotos, panorâmica da Refinaria Ipiranga na década de 1940 e flagrante dos primórdios com destaque para o Eng. Bastos com roupa clara.

O grão de areia que virou montanha III

Continuando a transcrição do artigo do eng. Francisco Martins Bastos chamado Nossa História na Revista Ipiranga (nº 68, ano 1977), destacamos as dificuldades operacionais para o funcionamento da Refinaria em seus primórdios. A arte de refinar petróleo é relatada de forma coloquial e criativa, num período de aprendizagem quase artesanal.

A difícil arte de refinar petróleo

“Com o afastamento do engenheiro que projetara a refinaria, foi, então, por escolha dos diretores, designado um engenheiro brasileiro para assumir a superintendência da parte técnica. Esse engenheiro, desde os primeiros dias, vinha participando, ativamente, dos trabalhos de montagem das instalações.
A condição para assumir as novas funções, segundo declaração daquele técnico, fora de que, desconhecendo completamente os problemas fundamentais com que teria de lidar, só aceitaria a incumbência como simples administrador no âmbito geral da fábrica. Condicionou a sua permanência no cargo aos resultados que fossem obtidos na operação das unidades de destilação pelos capatazes vindos da Argentina. Aceitas as condições, procurou o novo administrador cercar-se de elementos que garantissem, pelo menos, o futuro da Companhia, dentro de um cenário o mais técnico possível. Com essa finalidade, foi a Porto Alegre e a outras localidades do Estado, contratar rapazes com cursos especializados no Instituto Parobé e outros estabelecimentos de ensino técnico, de reconhecido valor educacional. Esses moços, que seriamos futuros operadores da indústria, viriam aprender os segredos da refinação do petróleo, com os experimentados capatazes vindos de fora. Dentre os que vieram, até hoje, felizmente, ainda colaboram conosco, para o engrandecimento da nossa empresa, os senhores Dario Dolci e Amelito Barbosa. Os outros, por ocasião da Segunda Grande Guerra, foram seduzidos, por ofertas melhores de outras empresas e abandonaram a nossa Companhia.
Desde o início da montagem contávamos também com a colaboração de dois técnicos brasileiros, os engenheiros. Tomás Paes da Cunha Fº e Heitor Amaro Barcelos. Quando iniciávamos a operação das unidades fomos procurar também um químico, para que se encarregasse do laboratório. A escolha recaiu no químico industrial João Câncio de Miranda Jr.
A parte comercial da Companhia estava sendo cuidada por dois profissionais de nacionalidade uruguaia, que tinham experiência nesse setor, pois já haviam desempenhado cargos semelhantes na refinaria da Ancap, no Uruguai. Eram eles, o sr. Carlos Alberto Clulow, que exercia as funções de gerente, e o sr. Américo Proto Barbieri, seu assistente. A contabilidade estava entregue ao sr. Artur Luís Armando de Souza, que, anteriormente, havia exercido o cargo de contador da Destilaria Rio-grandense de Petróleo, S/A, de Uruguaiana. Com esses colaboradores e sem nenhum conhecimento da matéria, lançamo-nos à luta, dispostos a encontrar solução para os inúmeros inconvenientes de operação que surgiam a todo o momento e que se refletiam, de maneira desastrosa, na parte econômica e financeira da novel companhia que surgia.
Desde o primeiro momento, deparamos com uma série de dificuldades na operação das unidades. Eram elas decorrentes de defeitos de projeto e falta de conhecimento dos capatazes que haviam sido enviados pela refinaria de Buenos Aires para ensinar nossos operadores. Verificando que a situação cada dia se tornava mais difícil e que o nosso conhecimento técnico, na matéria, era praticamente nulo, resolvemos convocar uma reunião da diretoria, para expor claramente o assunto. Informamos, pois, que o problema operacional da unidade de topping ficava no seguinte pé: a diretoria deveria contratar imediatamente um técnico especializado em refinação de petróleo, que viesse examinar a refinaria, dando as sugestões precisas para remover as dificuldades encontradas e conseguir o seu perfeito funcionamento.
Recebemos, então, a visita do eng. Esteban Polanski, que desde o primeiro momento nos cativou em todos os sentidos, não só pela capacidade técnica com também por seu um profundo conhecedor da matéria. Capacidade de improvisação para resolver os problemas, simplicidade e modéstia, era o seu apanágio. Cremos que a simpatia foi recíproca, pois no mesmo dia ele comunicou aos diretores que ficaria no Rio Grande, para estudar os problemas que nos afligiam e ensinar aos técnicos locais a difícil e aqui desconhecida arte de refinar o petróleo.
Achou ser possível uma solução gradativa para as várias dificuldades, sem a necessidade de paralisação das unidades de refinação. Começaram então os engenheiros Paes da Cunha, Heitor Barcelos, Miranda Jr. e o Superintendente, a receber aulas ministradas pelo eng. Polanski. Esses ensinamentos eram ministrados à noite, uma vez que, no período de trabalho normal, a atenção de todos estava voltada para os serviços de rotina da Refinaria. Além desses serviços, da mais relevante importância, o eng. Polanski dedicava-se, na parte de laboratório, a orientar o nosso químico e, na parte dos projetos, a estudar as modificações mais urgentes na planta industrial, para fazê-la trabalhar economicamente. Depois de uma semana de estudos e trabalho intenso, já estávamos aptos a começar a ‘somar em petróleo’ e, com estas primeiras lições, a resolver os problemas mais simples que surgiam na parte operacional das unidades. Com isto, salvamos parte das vendas da Refinaria de um colapso.
Havia, entretanto, necessidade de introduzir muitas modificações na unidade, quando para atender a compromissos anteriores, o eng. Polanski teve de voltar a Buenos Aires. Deixou-nos, porém, trabalhos específicos para que os iniciássemos e executássemos nos três meses que deveria durar a sua ausência. Mesmo com as unidades em trabalho, deveríamos realizar as modificações planejadas, seguindo as normas por ele recomendadas, anotando todas as dificuldades que fossem surgindo na operação, a fim de que, na próxima vez, quando do seu retorno, pudéssemos discutir os casos em detalhes, com dados concretos. Tínhamos um mestre que sabia ensinar; que se havia tornado amigo de todos; e que se manifestara um grande idealista. Armados com os seus ensinamentos e edificados pelo seu espírito, lançamo-nos à luta pela emancipação técnica da Ipiranga (...) Graças ao ensinamento do eng. Polanski, à sua extraordinária capacidade de improvisação técnica, a Ipiranga deixou de sofrer um grande colapso, que certamente a teria levado ao insucesso e à falência. Esse colapso, do qual tanto nos avizinhávamos e do qual nos afastamos pelas mãos sábias do eng. Polanski, poderia mesmo ter desencorajado qualquer outro empreendimento similar no futuro, pois seria, sem dúvida, apontado como exemplo aos que se quisessem lançar num campo tão difícil e praticamente desconhecido em nossa Pátria.
(...) Estávamos todos empenhados em solucionar os problemas técnicos, pois deles dependiam, como era natural, a vida e a continuidade da nossa Companhia. Entretanto, talvez por ignorarmos naquela época os detalhes da parte comercial, não nos apercebíamos de um outro grave problema que se avizinhava, de proporções tais que bastante se assemelhava ao que havíamos vencido no setor da produção industrial. A refinaria produzia, os 4 produtos básicos: gasolina, querosene, óleo diesel e fuel oil (óleo combustível pesado). Não encontrava nenhuma dificuldade para colocar a gasolina e óleo diesel. Por outro lado, não consegui vender um litro de querosene, ou de fuel oil. Para obtenção de cada litro de gasolina tínhamos forçosamente de produzir uma determinada quantidade desses dois produtos. Assim, sendo limitada a nossa capacidade de armazenamento, chegaria o dia em que teríamos de parar a refinaria, por não haver onde estocar o querosene e o fuel oil. Morreríamos afogados nos produtos que estávamos produzindo”.
Na próxima edição, terá continuidade a transcrição deste artigo de Francisco Martins Bastos. Nas fotos, a construção do primeiro posto de vendas de combustível, o Posto Um; ônibus da Refinaria Ipiranga nos primórdios da década de 1940.


O grão de areia que virou montanha (final)

Nessa edição, encerro a transcrição do artigo do engenheiro Francisco Martins Bastos “Nossa História” na Revista Ipiranga (nº 68, ano 1977), salientando que devido aos limites de espaço, neste último número da série, adaptei algumas passagens da publicação original até o ano de 1953. Bastos prossegue o seu relato histórico até a década de 1970. O autor, que acompanhou desde os primórdios a trajetória da Refinaria Ipiranga e que teve destacada participação em atividades sociais, culturais e intelectuais na cidade do Rio Grande, é natural de Uruguaiana, onde nasceu a 1º de março de 1907. Portanto, o centenário do seu nascimento deve ser lembrado, assim como o bicentenário do Almirante Tamandaré, comemorado também em 2007.

A mentalidade do petróleo e superando dificuldades

“Mais uma vez, entretanto, a capacidade criadora do engenheiro Polanski veio em socorro da nossa Companhia. Vendo que não havia colocação para o fuel-oil – uma vez que, até então, as caldeiras a vapor existentes no Estado consumiam, em sua quase totalidade, carvão nacional ou lenha – o eng. Polanski resolveu montar, com a máxima urgência, uma fábrica de óleos lubrificantes, utilizando, como matéria-prima, o fuel-oil que não podíamos vender no mercado. (...) Iniciávamos assim a produção e a venda de lubrificantes para motores de combustão interna ou de explosão, bem como para máquinas a vapor.
(...)Quando o grupo de capitalistas que fundou a Ipiranga se lançou nesse empreendimento, não existia no país qualquer lei restritiva à aplicação de capital estrangeiro, bem como qualquer regulamentação ligada às atividades da indústria da refinação de petróleo. A Ipiranga era um empreendimento pioneiro, que vinha lutar por um lugar ao sol em nossa Pátria, procurando criar aqui uma mentalidade de petróleo que já existia, na época, na Argentina e no Uruguai. No Brasil, ninguém tivera a coragem de se lançar num empreendimento dessa natureza, temendo a concorrência das companhias distribuidoras já estabelecidas no mercado brasileiro. Obrigaram-se, assim, esses homens que organizaram a Companhia, a enfrentar a falta de confiança na parte de obtenção de créditos bancários, uma vez que os bancos não acreditavam – como a maioria dos que contemplavam a iniciativa – que uma empresa do porte da Ipiranga pudesse subsistir, concorrendo com outras entidades de grandes recursos e experiência.
Aliados às dificuldades de operações creditícias junto aos bancos, estavam os inconvenientes já mencionados, devendo-se o primeiro deles ao sentido técnico e o segundo a concorrência das companhias distribuidoras no mercado consumidor. Sendo assim, os trabalhos iniciais da Ipiranga foram pontilhados de obstáculos que, somente graças ao espírito forte dos que nela se encontravam e a fé que tinham no empreendimento, poderiam continuar sendo enfrentados e sobrepujados. Parece-nos hoje que uma força superior nos impulsionava ao trabalho, apesar de todos os empecilhos que nos surgiam pela frente. Dir-se-ia que se procurava saber se tínhamos ou não condições e capacidade de sobrevivência, na constante luta que enfrentávamos. Quando esse grupo de homens que sem esmorecimento se empenhava em perseguir um ideal e já começava a ter a esperança de que os problemas estavam em grande parte solucionados e que a indústria se firmaria economicamente, foi que desabou sobre eles o golpe maior, atingindo toda a Companhia. O governo, pelo Decreto-Lei 395, de 29 de abril de 1938, nacionalizou a indústria da refinação de petróleo, (...) só poderiam ser acionistas de refinarias de petróleo, brasileiros natos quando solteiros, ou casados com brasileiros natos, quando o regime matrimonial fosse o da comunhão de bens. Assim, com uma penada somente, foram postos fora da nossa Companhia e também fora do Brasil, aqueles homens que, por idealismo, tinham vindo arriscar o seu capital para criar uma nova indústria em nossa terra. (...) É de justiça que se preste uma homenagem a esses homens, de nacionalidade uruguaia e argentina, que foram enxotados da nossa terra, quando aqui vieram arriscar o seu dinheiro para criar alguma coisa útil ao futuro da Pátria. Com o passar dos anos eles poderão ser esquecidos, mas nós desejamos que, pelo menos nestas páginas, os seus nomes fiquem lembrados por alguém que os aponte como os pioneiros, que vieram criar no Brasil uma mentalidade nova e confiança na indústria da refinação do petróleo. São os seguintes: Numa Pesquera, Manuel Morales, Eustáquio Ormazábal, Juan Ganzo Fernandes, Raul Aguiar, Carlos Clulow, Manuel Ferrería, Abel Pesquera, Luis J. Supervielle, Júlio Mailhos e Angel Aller.
(...) Mal tínhamos recomeçado a vida normal, quando surgiu outro grande problema, que afetaria diretamente a vida da nossa Companhia. Em 1º de setembro de 1939, isto é, um ano depois de termos sofrido o impacto da nacionalização, estávamos enfrentando as dificuldades oriundas do início da Segunda Grande Guerra. Os seus efeitos, como era natural, teriam de se refletir na nossa indústria, que utilizava matéria-prima – petróleo – básica para as atividades bélicas. (...) Nessa época, a Refinaria Ipiranga importava o petróleo bruto da República do Equador. Os carregamentos passavam pelo Estreito de Magalhães utilizando navios petroleiros de bandeira argentina. O Brasil possuía somente dois petroleiros. O primeiro inconveniente surgiu com a falta de petróleo. Os beligerantes, desejando aumentar o volume dos seus estoques de petróleo, bem como de destilados, empenhavam-se em conseguir todos os navios disponíveis, para levar-lhes a matéria-prima ou os refinados de que careciam. Procuravam, em longos comboios, furar o bloqueio que os submarinos alemães impunham nas rotas de abastecimento. Além das nações em guerra, as neutras precisavam também dos mesmos produtos e, dessa forma, o petroleiro argentino deixou de transportar petróleo para o Brasil, passando a fazê-lo para a vizinha república que, como as demais nações, sentia os efeitos da guerra. Ficamos, assim, sem petroleiros e com grandes dificuldades para conseguir um, de bandeira neutra, que fizesse o abastecimento da nossa Refinaria.
(...) Em 1942, ainda cambaleantes sob o peso desses problemas, outro ainda mais grave veio aumentar o nosso pesado fardo, com a entrada do Brasil na guerra. Com isso o bloqueio alemão apertou ainda mais o cerco, de forma que ficamos impossibilitados de receber petróleo bruto de qualquer parte. (...) [Com o apoio do presidente Getúlio Vargas foi enviado] o navio Recôncavo para trazer do mar das Antilhas o nosso abastecimento de petróleo, através de uma zona intensamente vigiada pelos submarinos alemães. Felizmente, porém, a estrela da Ipiranga continuava a brilhar e o suprimento chegou ao Rio Grande, algum tempo depois, sem qualquer anormalidade. Com o recebimento desse carregamento de petróleo, a refinaria voltou a operar. Todos na Companhia eram conhecedores dos sacrifícios e incertezas, que representavam para o país, o transporte de um embarque de petróleo até o Rio Grande. Não desconheciam também o valor e os benefícios dele decorrentes, caso os produtos fossem racionalmente utilizados, movimentando nossas usinas, as máquinas das indústrias, a maquinaria agrícola, etc. (...) A nossa Companhia já era reconhecida de interesse militar (Decreto Lei nº 18730, de 16 de abril de 1945) e seus funcionários eram considerados como mobilizados na própria indústria (Decreto Lei nº 4.937, de 9 de novembro de 1942). Surgiu, assim, em decorrência das exigências do momento, uma nova indústria no país, na qual a Ipiranga foi também a pioneira e que significava, ainda a evolução da refinaria, já mostrando o grande papel que desempenharia no futuro, produzindo solventes especiais para a indústria nacional. Após a guerra, o aperfeiçoamento dos motores de explosão continuou a exigir uma gasolina com um índice de octanas superior ao usado antes do conflito, obrigando as empresas a adaptar as suas unidades de forma a atender as exigências do mercado consumidor. Iniciamos os contatos para a montagem de uma unidade de cracking em nossa planta industrial. (...) E, em 21 de setembro de 1953, com a presença do sr. presidente da República, dr. Getúlio Dorneles Vargas, inauguramos, oficialmente, as novas instalações, iniciando um novo período na vida da Ipiranga...”